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Solomon Nikritin, self portrait, from the Smirnov, A., article "Russian Pioneers of Sound Art in the 1920s "

Solomon Nikritin, self portrait, from the Smirnov, A., article “Russian Pioneers of Sound Art in the 1920s “

O futurismo russo é pouco conhecido por nós. Tornou-se pouco conhecido, mesmo para os russos, durante muitos anos. Sabemos que, as centenas de anos após a Revolução Industrial, trouxeram novos paradigmas, que se instauraram na vida humana, nas relações, na relação com o trabalho, na vida das grandes cidades, dando novos sentidos, na ‘nossa’ relação com o tempo, e o espaço.

Mesmo na exaustão de um período de guerras, ainda que a comunicação global não fosse tão rápida, como é hoje, os anos 20 clamavam por uma arte mais participativa, mais relacionada a ciência, mais provocadora de reflexões, em todas as partes do mundo.

teoriaprojecionismo

O projeto e o método. Na verdade, a arte não se encerra nela mesma como uma peça para entreter o público e enaltecer o artista. Os artistas pensam em maneiras de trazer o ímpeto revolucionário, que almeja mudanças na vida social, para a sua produção. E a maneira, ou seja, método, que pensam atingir isto, é mostrando o trabalho em processo, a obra antes da conclusão, a obra aberta a crítica, a análise, a visitação. O artista COMPARTILHA SABER ao mostrar as entranhas de um processo. O artista está presente para explicar, falar. O artista é educador, sem a pretensão de sê-lo.

A parte isto, o artista têm todas as pretensões! As pretensões idealistas e utópicas de serem agentes provocadores de mudanças. De através de suas obras, estimularem novos conhecimentos, novas buscas, ‘insights’, isto está presente nesta declaração da “Federação de Futuristas” na Rússia, que, obviamente, por determinar – efusivamente-  independência frente ao Estado, fica categorizada como ‘organização anarquista': “destruição do controle político sobre a arte, e uma educação artística universal, sem obrigatoriedade de diplomas e menções”, fazia parte da lista de suas pretensões.

declarafuturist

O resgate destes históricos, está presente no trabalho de Andrey Smirnov, (link video), como ilustrado – também – neste artigo (link) :

O artista não é um produtor de bens de consumo (um armário, uma imagem), mas de ‘projeção do método’ – a organização da matéria. « O método, portanto, inventado pelo artista, torna-se o objetivo do processo criativo. A intenção era de novas ideias, para transferir energia criativa para as pessoas, estimulando o seu desenvolvimento. No contexto de “projetar o método», mesmo falhas e paradoxos ganhavam um novo sentido construtivo, e valor. No início de 1920, a pesquisa baseada em projectos ,ocorreu em muitos trabalhos, que poderia ser considerado (como crescimento do conceito) Projectionism. Artistas como Alexei Gastev com as exposições Art Movimento, os concertos-palestras de Léon Theremin e Arseny Avraamov na série Música do Futuro, em que o autor demonstrou suas idéias práticas sobre o futuro da harmonia e das técnicas, ao invés de apresentar peças musicais acabadas.”

Quando participei do workshop de Theremin do Smirnov, em 2007, ainda não tinha um panorama completo deste assunto, mas fico muito impressionada com a AFINIDADE destes parâmetros do “Projecionismo Futurista” com o meu primeiro trabalho de Instalação, “Sereia Lab”. A forma que foi conduzida a visitação do público, e todas as justificativas que escrevi para este trabalho, têm tudo a ver com a presença desta UTOPIA: o laboratório, a experimentação, a importância do acaso, o compartilhamento de saber, e a obra de arte como um fio condutor de novos ‘insights’, reflexões, e mudanças, no plano subjetivo, seja individual, ou coletivamente.

Suponho que estes sejam os paradigmas dos ‘inventores’, dos que amam o conhecimento, a ciência e as descobertas. E, sendo mais ‘esotérica’, dos que colocam amor no mundo, e nas relações. Pode parecer o contrário, por que os altruístas muitas vezes se isolam do contato social. De todo modo, estes paradigmas estavam também presentes na Renascença de Leonardo da Vinci. E, por essas e outras, vamos vendo que toda história de inovação e pioneirismo, traz também consigo alguns resgates.

Falar da Rússia, e antiga URSS é um caso a parte. Todo ambiente que favoreceu a Revolução Russa em 1917, reúne uma complexidade imensa, e, o fato do mundo ter ficado dividido, e de, internamente, a própria URSS reprimir e esconder uma série de inovações, seja por ‘guerras’ políticas internas, seja por ‘sigilo de guerra’, fez com que não tivessemos qualquer contato com estes desenvolvimentos e processos históricos. Do ponto de vista artístico e científico, o que ocorreu foi de uma riqueza imensurável. Mesmo com todos os esquemas de especializações e divisões da sociedade industrial, um grupo de pensadores buscava manter uma pluridisciplinaridade, algo fora do comum, daquela época aos dias de hoje. É verdade que hoje, nesta última década, ou digamos, desde o início do século XXI, estamos buscando retomar muitos saberes e conceitos deixados de lado em função da indústria e do mercado. Seguem as palavras de Smirnov, Andrey, artista e pesquisador que tive contato durante seus ensinamentos sobre a construção, história e uso do Theremim:  “A história e a cultura da Utopia artística russa, dos anos 1910-1920s era uma espécie de “cultura de rede” de revolucionários na arte que realizaram projetos aparentemente irrealizáveis ​​em som, inventaram novas máquinas musicais, e exploraram conceitos e métodos que ofereciam uma base promissora para futuro desenvolvimento científico e cultural. O final da década de 1920 foi o período em que o som estava sendo desenvolvido para acompanhar filmes e animações na Rússia.

Os estudos de som para o cinema soviéticos, foram precoces, e um tanto subestimados e sub-explorados, não menos importante devido ao fato de que, na década de 1930 a censura iníciou mais rigorosamente. Muitos filmes passaram a ser censurados, sujeitos à repressão ou simplesmente desapareceram. Por outro lado, o breve período entre 1930 e 1934 produziu inúmeras descobertas extraordinárias relacionadas com a arte sonora. Pela primeira vez, os artistas fascinados pela idéia de som como um meio de arte tiveram a oportunidade tão esperada para editar, processar, misturar e estrutura material áudio pré-gravado, o que levou a um maior desenvolvimento da ‘Noise’ Orquestra e criação de inúmeras trilhas sonoras baseadas em Noise Music. O crítico de cinema Alexander Andrievsky observou em 1931: “Enquanto no exterior as primeiras obras relativas ao cinema foram baseadas principalmente em material de música, na URSS, tivemos uma outra tendência. O principal material de áudio dos primeiros filmes sonoros baseou-se em ruído e vários rumores ‘. Sendo baseado no chamado “método contrapontístico ‘, essas trilhas sonoras tornaram-se obras-primas da arte sonora cedo.

A tecnologia do som no cinema também abriu o caminho para uma análise sistemática dos vestígios de áudio tais que poderiam ser usadas para produzir qualquer sons sintéticos à vontade, que por sua vez levaram à invenção das técnicas de som com grafismos (desenhos). Foi Avraamov que completou as primeiras trilhas sonoras em 1930 e em 1936,  ‘artificialmente’ desenhadas. Houveram quatro tendências principais de Graphical Som na Rússia soviética: desenhado à mão Ornamental Som (Avraamov, cedo Boris Yankovsky); -Som feito a mão, com papel  (Nikolai Voinov); Variophone ou  Som  automatizado com Papel (EvgenySholpo, Georgy Rimsky-Korsakov); e a análise, a decomposição e a re-síntese técnica espectral (Boris Yankovsky). A idéia de Yankovsky estava relacionada com a separação do conteúdo espectral do som e seus formantes, assemelhando-se as técnicas de música de computador recentes populares de síntese cruz e o vocoder fase. Foi sem dúvida um dos mais radicais, proposições de mudança de paradigma de meados de 1930.”

Arte Sonora Sem Teto___B

Elen Nas- Escultura Sonora (Hiperorgânicos/Capanema 2011)

Elen Nas- Escultura Sonora (Hiperorgânicos/Capanema 2011)

(Aulão 1: continuação…2)

Arte sonora como mercadoria? Em que economia? Em um outro “planeta”, um outro sistema de valores, um outro tempo, talvez… Fora da economia de mercado da música, fora da economia de mercado das artes plásticas, o som, como arte sônica, passa pelas brechas de um mercado musical em queda-livre…

Por quê ter um trabalho de arte sonora em uma galeria, se este não pode ser vendido como arte? Colecionadores compram pinturas, esculturas, mas… e um trabalho de arte sonora, ou de performance? Trabalhos marcados pela efemeridade, desde que precisam ser vivenciados. E seus efeitos irão ter diferentes nuances, a depender de onde, como, com quem, e na presença de quem foram realizados!

Trabalhos experimentais, futuristas, geralmente são vistos como uma espécie de ‘hobbie’, feitos por pessoas que não precisam viver de seu trabalho, pessoas que podem ‘se dar ao luxo’ de ‘experimentar algo novo’, para se lançar a novas descobertas… (?)

Bom, este é um paradigma antigo, do início do século 20, talvez? Ou ainda mais antigos, quando ‘multi-artistas’ como Leonardo Da Vinci pesquisavam outras e novas formas de expressão, independente da atividade que lhe era mais rentável, a atividade que pagava, indiretamente, suas buscas e pesquisas na ciência e inovação?

No século 21 ocorre então, uma mudança neste paradigma, em que a riqueza coletiva entra como incentivo de verba pública, para que a dedicação a novas linguagens e expressões nas artes ocorra em maior escala. Uma escala que se torne significativa o suficiente para construção de novos saberes, para escrita de outras, antigas e novas histórias.

Entre estas mudanças, tremores de crises econômicas, e ainda, diferenças nas aplicações destas ‘tendências’ mundiais nas artes, de acordo com cada cultura e território.

Quer saber os rumores das histórias passadas? O século XVII já era cheio de “barulhos esquisitos”, sons estranhos a ‘vida orgânica’. Afinal, o que seria a chamada “Revolução Industrial”, senão uma grande mudança nos paradigmas na relação do indivíduo com o tempo, e com o seu meio? Você pode recorrer aos ‘futuristas italianos’ para estudar sobre o estudo do ruído, no início do século XX, mas você pode também se aprofundar no próprio estudo da história, história da vida social, e desenhar um ‘mapa’ do som, em períodos bem anteriores…

No mundo das artes visuais, pode-se considerar que os artistas já se moveram do ponto onde estava Duchamp, enquanto na música, o que há de desdobramento, a partir de John Cage?

O rótulo de “arte sonora” atende aos seus praticantes? Como rótulo, a arte sonora se torna uma ramificação -marginalizada- no mundo das artes visuais, quando a sua história, seu processo de criação, têm uma origem bem mais antiga e complexa do que o que se pode acessar pelo caminho da necessidade de uma “prateleira”, para um “produto” no mercado.

A arte sonora, assim como a performance, está alheia a necessidade de mercado de especificar produto. Sendo, a sua inadequação, o próprio manifesto da arte, como busca de novos paradigmas na relação do humano com o meio. Isto a parte, os discursos específicos destas expressões, tocam subjetividades de valores incontáveis.

<p><a href=”https://vimeo.com/6033559″>Sound in Context (Full Film)</a> from <a href=”https://vimeo.com/soundandmusic”>Sound and Music</a> on <a href=”https://vimeo.com”>Vimeo</a&gt;.</p>

Elen Nas - Aquarela em tela de algodão.

Elen Nas – Aquarela em tela de algodão.

(Aulão 1: continuação)

A lógica da Arte Sonora vive em total isolamento. Seria uma busca por integração compartilhar o mesmo espaço com a performance e os vídeos? Combinar linguagens híbridas, por conveniência, conceito, ou otimização do espaço?

Circuitos abertos, entre a experiência do show/concerto, e da visitação as galerias de arte, podem ser interessantes para o ‘expectador’…

E se uma instalação durar para sempre? Em que medidas se encontram os sentidos sobre o tempo?

Leva tempo para ouvir o som, deixar o som entrar, deixando de lado os aprendizados prévios, as memórias sobre o som, ou o que se entende por música. Permitir os ruídos, ou simplesmente sentir. E ainda têm os vídeos, as imagens, as performances. Leva tempo para ouvir o som…

E vamos admitir, sem afetações, a maior parte dos curadores, do mundo das “artes visuais”, mesmo os que se dispõe a trabalhar com Arte Sonora, não entendem de Som, e pouco sabem sobre as práticas contemporâneas deste mágico mundo da música como arte sonora! E, você não precisa ser um pintor, para ser o curador de uma exposição de pintura, mas, claro, é bem vindo que saiba de história da arte, por exemplo. Mas, fora destes conhecimentos acadêmicos, é possível adquirir uma série de conhecimentos que forma um bom curador.  A Arte Sonora, no entanto, têm uma história ainda por ser escrita, e seu desenvolvimento depende de realizações, onde, certamente, faz/fará falta, alguns conhecimentos específicos, especialmente sobre aqueles onde estão mergulhados o mundo do som!

As práticas contemporâneas da Arte Sonora, não contam de 5 ou 10 anos atrás, mas de décadas. No entanto, devido a sua dificuldade de fluência, frente as mais diversas demandas paralelas no mundo das artes, todas as suas questões específicas, e a falta de espaço próprio para melhor desenvolvimento de suas experiências, estas histórias fazem parte das páginas e capítulos quase ocultos, dentro do mundo das artes.

Quando a Arte Sonora ‘negocia’ a sua expressão no plano institucional, com as galerias, alguma confusão, nestas lacunas de compreensão, pode ocorrer… A necessidade de ‘flexibilizar’ a obra ao local, ao contexto, as necessidades da curadoria e/ou galerias… quando o artista sonoro se ‘dobra’ a tudo isto, ele pode estar começando um histórico de arrependimentos…

Enquanto o ‘performer’ dialoga, de indivíduo para indivíduo, o som se comunica, com o espaço. Passa através dele, assim como, também, busca o seu espaço de expressão na arte. A Arte Sonora quer também seu espaço construído, desenhar sua própria arquitetura!

<p><a href=”https://vimeo.com/6033559″>Sound in Context (Full Film)</a> from <a href=”https://vimeo.com/soundandmusic”>Sound and Music</a> on <a href=”https://vimeo.com”>Vimeo</a&gt;.</p>

Arte Sonora Sem Teto_intro

<p><a href=”https://vimeo.com/6033559″>Sound in Context (Full Film)</a> from <a href=”https://vimeo.com/soundandmusic”>Sound and Music</a> on <a href=”https://vimeo.com”>Vimeo</a&gt;.</p>

Aulão 1:

Artistas Sonoros são inadequados e inofensivos;

A arte Sonora não pode ser vista na sala de concerto, tampouco em uma galeria;

Ela precisa encontrar a sua própria casa;

Sua história é híbrida;

Ela quer mostrar a energia quântica presente nas “entrelinhas”, tudo que pode passar desapercebido, e está, têm estado sempre aí, ao alcance dos seus ouvidos…

A apreciação estética do som, levada para as galerias de arte, as experimentações sonoras, têm se mostrado, na maior parte das vezes problemática…

As prioridades estéticas de quem trabalha com o som, são freqüentemente distintas das prioridades para os que se dedicam exclusivamente a trabalhos visuais;

O que parece soar bem para um leigo em som, pode ser algo muito equivocado para o não-leigo. O que é cacofonia para um, pode não ser para o outro, e vice-versa…

Para o trabalho de Arte Sonora, ter a Oportunidade não é tudo. É preciso fazer funcionar, e isto requer estudo e entendimento sobre uma série de fatores, que vão desde a acústica, até os aspectos técnicos e possibilidades financeiras para montar, adquirir, e/ou eleger os equipamentos adequados.

Os ruídos invisíveis do som são diferentes dos ruídos visíveis das imagens. O som penetra no corpo, mesmo quando estamos de olhos fechados!

Landsc1

PERFORMANCE * MANIFESTA

london1999

A performance é um manifesto do CORPO;

o corpo quer TRANSGREDIR;

o corpo quer manifestar sua liberdade, sem religião, sem família, sem MORAL, sem padrão, sem “bons costumes”;

o corpo quer ser corpo, fora do corpo SOCIAL;

o corpo quer EXPLODIR em potencialidade, para uma nova sociedade, em PROCESSOS de fragmentação;

o corpo busca sua VERDADE, em um tempo de busca de novas verdades;

o corpo quer ser seu indivíduo hóspede, como único proprietário nas DECISÕES sobre ele;

o corpo quer ser LIVRE, até mesmo para mutilar-se, e, se isto agride o outro, o corpo NÃO SE EMOCIONA;

o corpo quer autonomia das emoções mais básicas, para pesquisar uma nova ‘paleta’ de emoções e SENTIDOS;

o corpo quer ter VOZ;

a voz quer EXPANDIR o corpo;

a voz quer se manifestar, e se AMPLIAR, através do seu corpo;

a performance quer JUSTIÇA;

a performance quer mostrar a DOR do que não quer ser ESQUECIDO, do que não deve ser calado;

a performance se DESVIA da norma, da alegria polida, do sorriso amarelo;

a performance não quer esquecer a HISTÓRIA;

a performance quer contar, um OUTRO LADO, da história;

a performance também quer mostrar, as CONSEQUÊNCIAS das lutas, as consequências dos LIMITES;

a performance quer manifestar as consequências das GUERRAS e regras;

a performance desafia as leis do poder, e suas lógicas, ilógicas;

a performance chega num momento de MUTAÇÃO;

a performance cresce na BUSCA do indivíduo por sua IDENTIDADE;

a performance CONTESTA o MERCADO;

o mercado veicula a PROPAGANDA da emoção artificial, articulada, previsível, enquanto a PERFORMANCE quer mostrar as VÍSCERAS das emoções DISCRIMINADAS e MARGINALIZADAS;

para o mercado, não é bem vinda a memória, não é bem vindo falar do passado, não são bem vindas suas dores, vivem os seres mutilados nas falsas verdades, enquanto a performance quer mostrar a sua REALIDADE;

o indivíduo PERFORMER espelha todos os INDIVÍDUOS, quando expõe seu corpo em algum tipo de AÇÃO;

quanto mais “na borda”, ou “FORA DO LIMITE”, mais o performer irá causar REAÇÃO e irritação, e, em raras vezes, admiração;

o performer não busca sentido positivo ou negativo no ARREBATAMENTO de sua EXPOSIÇÃO ao outro;

o performer “joga as cartas na mesa”, e deixa que elas se embaralhem POR SI SÓ;

a performance é um manifesto do conforto, no DESCONFORTO;

a performance AFIRMA que, antes ser VISCERAL, do que SUFOCAR o SUFOCO;

o performer chega aos limites do sufoco como trabalho de pesquisa;

o performer não se ilude com o falso glamour do sucesso fabricado;

o performer representa apenas a si mesmo, sendo, por isto, capaz de estar sempre representando seu OBSERVADOR;

o corpo CRU é NU, não é ‘lingerie’, ‘maiô’ ou pijamas. não é ‘jeans’ nem ‘tennis’, o corpo nu é IGUALITÁRIO perante qualquer tipo de ‘status';

os corpos nus, em suas diferentes FORMAS, aproximam-se da NATUREZA em sua PUREZA de semelhança;

o TABU sobre o corpo nu mostra como rejeitamos a sua natureza;

performance é comunicação simbólica, é SEMIÓTICA;

nem toda comunicação simbólica têm, ou precisa ter sentido claro, para todos;

a performance pode, simplesmente, MANIFESTAR fruição de BELEZA;

os meios da performance, para representar beleza não precisam ter sentido conceitual próprio, tampouco serem originais;

o corpo, na performance, pode também ser como aquele quadro em branco, ou uma tinta esparramada, da sua cor de preferência;

a performance é também manifesto do ARTISTA, em sua forma, busca e MOVIMENTO, por outros e novos caminhos de expressão;

nestes processos de LEGITIMAÇÃO do corpo como MEIO, toda busca despretensiosa é LEGÍTIMA, todo “work-in-progress” é ‘master-piece’, todo anão é gigante, e vice-versa;

a performance, não se apega a hierarquias, ela traz o artista para frente da tela e lhe enche de máculas, sem saltos-altos, ou pedestais, ela busca paridade, ela se desafia e se lança na utopia de igualdade;

a performance não é obra de arte a ser contemplada, ela precisa ser vivida, como elemento físico de quarta dimensão;

a performance pode ser documentada, mas nunca será registrada, ou capturada por nenhum meio, em sua totalidade;

a performance nunca é igual, a performance é plural, e, o entendimento sobre a performance não se encaixa em padrões e teorias já conhecidas, por isto ela te desafia, o tempo todo, sendo assim, ainda mais incômoda;

tempo, espaço, quarta dimensão, VIBRAÇÃO, expansão dos SENTIDOS, SOM;

a performance traduz ENERGIA VITAL, como a comunicação GESTUAL e SUPREMA do corpo, revelando seus estados físicos, mentais, SENSORIAIS;

o corpo, como meio de expressão, é material SEM FRONTEIRAS.

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boca

“A subjetividade tornou-se subjugada à sexualidade: a verdadeira consciência do self é concebida nos ermos de uma medida da estimulação corporal. A noção, na linguagem americana, de perguntar se “você sente o que eu estou dizendo”, aquela idéia de usar a palavra “sentimento” como uma medida de verdade entre as pessoas é uma conseqüência desta submissão da sexualidade à subjetividade e transmite, com essa conotação, que, se alguma coisa não é sentida, não é verdade. As origens de revelar a verdade através do desejo corporal remetem, novamente às fontes cristãs. A conseqüência moderna é que a instabilidade do curso do desejo sexual tem agido como ácido sobre a confiança do self de alguém: como o desejo corporal muda, as pessoas têm que guardar, para contar para si mesmas, verdades novas ou diferentes ou contraditórias sobre si próprias. A crença em si mesmo, na integridade da consciência do self é desagregada como a verdade de que o self do indivíduo está submetido aos estandartes do corpo.

A sexualidade, então, tem introduzido elementos tanto de medo, quanto de dúvida do self dentro da experiência da terceira solidão, a condição de autoconhecimento como um comportamento humano único, separado. É um truísmo psicológico que aquilo que é temido ou ambíguo torna-se urgente para uma pessoa. As muitas incertezas que a sexualidade cria para a subjetividade exageram a importância da experiência, isto é, quanto mais a sexualidade torna- se problemática, maior a sua importância para nós na definição de nós mesmos.”

Texto retirado de: 2 FOUCAULT, Michel e SENNETT, Richard
“Sexuality and solitude”, in London Review of Books, 21 May – 3 June, 1981, pp. 04-07 Tradução: Lígia Melo da Costa, Maria Beatriz Chagas Lucca e Sérgio Augusto Chagas de Laia

Solitude (II)

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“Há um relacionamento direto entre solidão e sociabilidade: a menos que o ser humano possa se sentir bem sozinho, ele ou ela não pode estar bem com os outros. Há um ritmo entre a solidão da diferença e a sociabilidade que deve prevalecer na sociedade, e é um ritmo que nós não sentimos porque, em parte, a experiência de estarmos sozinhos conosco é muito problemática. Eu também gostaria de dizer que este ritmo é possível para nós através da experiência num caminho que não estava no passado, porque uma oportunidade imensa abriu-se na sociedade ocidental burguesa. Essa é a oportunidade de viver numa sociedade fragmentada.
Existe, hoje, uma possibilidade de se escapar dos ‘laços orgânicos’ da religião, da família, do trabalho e da comunidade que mantiveram unidas muitas sociedades anteriormente – se não completamente, de fato, pelo menos como um ideal comum. O amor do ‘orgânico’ era um amor que começávamos a fazer exteriormente…
Em vez de ficarmos lamentando essas mudanças como sinais de decadência da sociedade, penso que temos de aceitá-las e tentar ver o que de bom elas trazem. O bom que as vejo trazer, é a criação de uma nova oportunidade tanto para a solidão, como para a sociabilidade.
O desligamento dos ‘laços orgânicos’ significa que as relações sociais tornar-se-iam cada vez mais uma questão de escolha. As relações menos sociais aparecem embebidas na chama da natureza, da lei divina, da necessidade orgânica, a maioria das pessoas seria capaz de se imaginar com uma vida separada de seus papéis sociais. Quando escolhemos entrar no interior das relações sociais, mais elas se complexificam. Mas essa sensação de escolha, ou não escolha, que a pessoa leva consigo numa sociedade fragmentada, depende de saber como ver o indivíduo isolado, com um comportamento diferente, em seus próprios direitos.

A inflação da sexualidade pode ser uma medida da verdade psicológica, que tem conseguido desorientar essa classe de conhecimento do self.”

Texto retirado de: 3 FOUCAULT, Michel e SENNETT, Richard
“Sexuality and solitude”, in London Review of Books, 21 May – 3 June, 1981, pp. 04-07 Tradução: Lígia Melo da Costa, Maria Beatriz Chagas Lucca e Sérgio Augusto Chagas de Laia

Solitude (I)

Vienna

“Deixe-me agora dizer alguma coisa sobre o que a palavra “solidão” significa. Conhecemos três solidões na sociedade. Conhecemos uma solidão imposta pelo poder. Esta é a solidão do isolamento, a solidão da anomia. Nós conhecemos uma solidão que suscita medo da parte dos que detêm o poder. Esta é solidão do sonhador, do homme révolté, a solidão da rebelião. E, finalmente, há uma solidão que transcende os termos do poder. É uma solidão na idéia de Epiteto que há uma diferença entre ser solitário e ser sozinho. A terceira solidão é a sensação de ser um entre muitos, de ter uma vida interior que é mais que um reflexo da vida dos outros. É a solidão da diferença.
Cada uma dessas solidões tem uma história. No mundo antigo, a solidão imposta pelo poder era o exílio; no século XVII, na França, a solidão imposta pelo poder foi o banimento para regiões longínquas. Num ponto de vista moderno, a solidão criada pelo poder é a sensação de solidão no meio da massa. Num mundo antigo, o isolado sonhador que os poderosos temiam foi um Sócrates, aquele que colocou contra as leis do estado um discurso de lei superior, um ideal contra uma ordem estabelecida.”

Texto retirado de: 1 FOUCAULT, Michel e SENNETT, Richard
“Sexuality and solitude”, in London Review of Books, 21 May – 3 June, 1981, pp. 04-07 Tradução: Lígia Melo da Costa, Maria Beatriz Chagas Lucca e Sérgio Augusto Chagas de Laia

“Acabou o Amor”

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Parece que vamos, pouco a pouco, reascendendo esta chama, uma “palavra de ordem” das manifestações de meados de 2013, dois anos depois…
Mágicos esses momentos em que os ressentimentos individuais encontram eco no mundo. Ninguém é mais solitário em sua mágoa. A tolerância e o respeito abusados ao máximo, a gentileza pisoteada, uma lista de amarguras coletivas, que cresce, especialmente em um país onde o poder judiciário mede as misérias para aplicar penas de danos!
Onde já se viu isso? O valor da indenização depende de quem vai receber, e não do caráter corretivo e educativo, que só vai fazer sentido se estiver equivalente com os recursos de quem está pagando!!?? Claro! Se, para quem paga, uma indenização de 2mil é irrelevante, vale muito mais a pena pagar milhares deste tipo de indenização do que se corrigir, não é verdade?
E, um advogado, recentemente, me esclareceu, que se discute isso: se o cara é favelado, 2 mil é muito! Carambolas! O favelado paga preços diferenciados por produtos e serviços, por ser favelado? Não né? Então um valor que não compra nem uma geladeira, é tão irrisório para quem recebe, quanto para quem paga, seja quem for, um e outro!
Como a justiça brasileira desce num nível tão baixo??!!! É algo a se refletir…
Pagar umas poucas centenas de milhares de reais em indenização pode ser proibitivo por ser interpretado como “enriquecimento sem causa”!!?? Bom, as regras financeiras são mais ou menos universais, como deveriam ser as regras jurídicas, e ninguém, ninguém mesmo, enriquece, com 200, ou 300 mil reais… Nem vamos discorrer sobre o assunto, é ridículo demais… Digamos, o “favelado” no Rio de Janeiro, recebe 200 mil de indenização, vai deixar de ser favelado? Não. Vai conseguir investir em algo que melhore a sua qualidade de vida? Bom, se resolver ir morar no interior, mas ainda vai permanecer o problema da sustentabilidade, pois com este valor poderá, no máximo, comprar um terreno, ou uma casa, bem longe da cidade… Pode, ao decidir permanecer na cidade, tentar iniciar um pequeno negócio, como comprar uma van para transportes comunitários, ainda assim, muda pouco, ou quase nada, sua qualidade de vida.
E, vamos dizer que, se houve um dano passível de reparo, pensar que este valor é muito ou pouco para aquela, ou esta pessoa, parece ser algo bastante equivocado, para não dizer inculto e inconsciente. Me fica a pergunta se esta ‘regra’ não fere outros regimentos universais do direito, e de que datas e períodos estas “regras” como as do “enriquecimento sem causa” foram criadas, e passaram a ser aplicadas nas interpretações das ações cíveis.
Mais uma vez a justiça brasileira dá um “tiro no pé” para qualquer avanço para um país civilizado (com cidadania forte!).
Lembrei do meu professor de canto lírico, que viveu os tempos áureos do Theatro Municipal nos anos 50, contando aquela “piada” antiquissima, que fala da divisão de Deus para os territórios do mundo. Quando alguém replicou que não era justo que o Brasil fosse tão bonito, temperatura agradável todo ano, agua doce em abundância, geografia extasiante, ele, Deus, replicou: “espera para ver a “gentinha” que vamos colocar lá”.
Nesse caso, a “gentinha” que ataca a cidadania, não é necessáriamente o desprovido de recursos e direitos básicos, mas todos aqueles que lhes negam dignidade colocando a frente preceitos discriminatórios de ordem sócio-econômica. A falta de respeito ao outro demonstra falta de respeito a si próprio. Assim o tal “complexo de vira-latas” é referendado por quem não consegue, nem sabe como, levantar a cabeça, sendo assim, a maior diversão dos mais complexados e frustrados, é pisar, mesmo nos que estão caídos e vêm em busca de ajuda…
Não sei o que posso ver de positivo na justiça brasileira, de todo modo, é a justiça que temos, para tentar sanar alguns problemas… Só posso mesmo é desejar força aos “homens de bem” que decidem trilhar este caminho. Inclusive as mulheres, obviamente! ;-)

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