Diário de Bordo – Lirismo na Rua 2016

19 de junho: Humaitá e Madureira

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Imagem: A Dama de Shalott de John Willian Whitehouse 1888

Manhã: Cobal no Humaitá

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Nos organizamos em um Café, depois nos dispersamos para executar a ação.

Comecei sentada em uma lojinha de doces e depois fui passeando pelos corredores coloridos de flores, frutas e legumes.

Umas senhoras se aproximavam para falar coisas boas. Outros comentários dispersos eram de espanto ou engraçados.

A Ária da Traviatta requer muito ânimo, gestos expansivos, atitude heróica. A dúvida dos que estavam ao redor era se este ato se resumia entre a “loucura” e o “êxtase”.

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Imagem: Banksy (1974 – …) “Rage: Flower Thrower”

Tarde: Parque Madureira

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Um dos lugares mais bacanas da cidade, embora a Cidade Maravilhosa seja exuberante em beleza em todos os cantinhos.  Mas ali sim as pessoas aproveitam o Parque no bom estilo europeu: sentadas, reunidas, no gramado em volta do chafariz,  crianças patinando, andando de skate, famílias, amigos, casais, um cenário realmente diverso, multicultural, pra diferentes tribos e idades.

Um clima receptivo para a performance do “Lirismo na Rua”. Mesmo que inicialmente não soubessem do que se tratava pareciam achar divertido o inusitado. Uma criança no gramado perguntava a mãe “onde será que ela pensa que está?”. Mas longe de ser uma pergunta arrogante, era uma tentativa de entender aquela imaginação de quem está ali com tal atitude… lírica! =)

Um momento marcante foi no trecho da ária diz “de volar” (“de voar”) e, ao abrir os braços, passei por umas meninas que me viam e faziam o mesmo.


20 de junho: Central do Brasil

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Charles Chaplin: “Tempos Modernos” 1936

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Segunda-feira não é um bom dia para contemplação e para a performance lírica só os ditos “vagabundos” e alguns poucos ‘curiosos’ pararam por alguns instantes.

O garoto, talvez de rua, passou por mim e disse “a maconha tava boa!”. Esse foi ainda mais estranho porque ele falou como que ‘chamando a atenção’. Outros passavam rindo.

Ao menos isso. Que a poesia seja uma ferramenta para se “rir a toa”! =)

Todo mundo muito apressado, sem tempo pra entender qualquer coisa. Um ou outro ‘Don Juan’, jovem ou ancião, se aproximava para fazer par com a ‘dama delirante’.

O Lirismo, a poesia cantada, não faz parte dessa engrenagem e o ‘mote’ da Traviatta é “Notícias de Uma Revolução Molecular”.


24 de junho: Praça XV/ Barcas

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La chanteuse au gant” de Edgar Degas 1878

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Uma sexta-feira de reflexos reluzentes na Baía da Guanabara. Neste dia gostaria de ter uma câmera na minha roupa para pegar as tantas expressões e olhares de quem deparou com a atitude exaltada do Lirismo!

Épico, jocoso, exagerado ou obsceno, o corpo e sua imagem em movimento transmite muitos sinais!

As palavras já possuem sua sonoridade, com a música elas expandem para além de sua compreensão, perfuram os sentidos.

A palavra é comunicação. A voz é um manifesto livre de significado. A voz que se expande, a voz que se eleva, o corpo que amplifica essa voz: tudo traz um sentido, que também se modifica no olhar do outro.

A oficial da segurança tentou me parar. Consegui escapar. Os olhares das mulheres de todas as idades eram muitas vezes receptivo. Senti que se reconhecia uma arte, uma beleza no ato do Lirismo.

Já os homens, em geral parecem achar irônicamente engraçado. Pode ser uma visão sexista, mas a mulher exuberante, em todos ou muitos aspectos parece ser uma cruz para o Diabo! Neste dia eu senti que eles realmente me olhavam como A escandalosa. rsrsrsrs. Houve até um imprevisto na volta da viagem, quando um homem humilde do tipo ‘descompensado’ me chamou de “vagabunda” aos berros.

Tentei manter o clima e sorrir, mas ao final de uma frase vi que estava perdendo um pouco da concentração, até porque todo mundo achou engraçada a perseguição dele comigo. Fui para o andar de cima e retomei. Depois de desenvolver todo o tema novamente, quando já estava terminando e o pessoal começava a ser informado de que aquela era uma ação artística parece que sentiam mais vergonha de achar engraçado o tal homem me xingando.

Mas, antes de ser uma ação artística, que planejada ou não, não tinha como não ser, já que cantar uma ópera requer algum conhecimento,  era uma mulher ali, sendo xingada, então porque não fazer um schhhhhhh pro cara ficar quieto, e ao invés disso dar risadinhas? Algo a se pensar… o carioca é debochado É. O brasileiro é machista? É. Então tá, vamos pensando sobre isso…


25 de junho: Cadeg e Saara

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Imagem: Mulher turca em vídeo de 2008, exposto no Moma em 2012 na obra “I can sing” de Ferhat Ozgut, exposta como discussão sobre o regime político opressor.

Manhã: Cadeg

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Levei meu “eu Lírico” para passear na Cadeg esta manhã. Um povo muito intenso e musical ocupa os tantos corredores, entre lojas, restaurantes, mercearias.

Nossa equipe se perdeu por aqueles galpões e quando a voz lírica começou a ecopar por lá os feirantes ficaram agitados! A “conrrência” foi pesada! hehehe Daí resolvi atravessar o estacionamento cantando para finalmente encontrar o caminho das flores!

Depois de algumas caminhadas cantantes no galpão das flores, que rendeu muitas cantaroladas dos vendedores e comentários inusitados das mulheres, fui fazer as compras do sábado e aí então as pessoas vinham falar: “você alegrou o dia na Cadeg”, entre os elogios a voz, ao canto outras perguntas e comentários surgiam. Mas, a Cadeg, que já é musical, ficou ainda mais musical!

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“La Folie” de Wladyslaw Podkowinski 1893

 

Tarde: Biblioteca Parque e Saara

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Neste dia a voz atravessou os espaços e realmente fez mover as moléculas do belo edifício da Biblioteca que eu realmente frequentava desde que era aluna do Colégio Pedro II, ali perto, na Marechal Floriano.

Aproveitando o embalo da acústica redonda da Biblioteca, entrei pela Rua da Alfândega, onde a ópera se mixou com o funk que tocava na rádio do Saara.

As reações são desconfiadas ou alegres, e algumas vezes podem ser lúdicas, como o homem que me viu passar e falou em tom de oratória: “é isso aí mulher! Bota pra fora aquilo tudo que está dentro de ti!”

Nestes vários lugares por onde tenho passado esses dias vejo que em seguida as pessoas ficam mais “barulhentas”, no bom sentido. O bom sentido é que quando as pessoas estão apaixonadas, animadas, esperançosas elas ficam “barulhentas”, no bom sentido. =)


26 de junho: Santa Teresa

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Parque das Ruínas

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Dar voz ao lugar. Dar corpo ao lugar. Começo a cantar na janelinha de cima com a vista incrível para a Baía da Guanabara. Aliás, uma vista de 360 graus nesta torre.

No mirante acima muitas pessoas viajando no cenário e, ao me ouvir, algumas arriscam cantarolar também =)

Parece que por todo prédio e em tudo a volta a voz ecoou, pois lá de cima eu via as pessoas olharem para o prédio, tentando entender o que estava ocorrendo.

Um bailarino depois veio comentar que esta cena, a Performance inusitada, mudava toda disposição das pessoas no espaço, e o canto lírico, tão perto, vinha de uma moça vestida ‘a passeio’, com os seus headphones. Então seria ou não proposital?  “Ela deve estar muito feliz, algo de bom aconteceu”, alguém disse.

Assim como gargalhadas, sorrisos e bocejos, entusiasmo é contagiante! Por isso algumas pessoas entraram na cena, imitaram a entusiasta, ou dançaram uma valsa que não ouviam.

Me lembrou o que escreveu Ettore Scola no roteiro sobre Fellini: “o artista é um transgressor”.


1 de julho: Copacabana

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Shopping dos Antiquarios

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Nesta sexta-feira, o “Lirismo na Rua”, uma cena lírica “fora do pacote” que acontece apenas na imaginação de quem canta aconteceu em Copacabana! Uma situação “fora do pacote” que dá oportunidade aos outros de entrarem na cena em condição de igualdade traz reações, afeições ou rejeições inusitadas. Uma senhora chama uma moça e diz “é você que estava cantando?”, ela responde “não, porquê?”, “porque eu ia pedir para parar porque estou com dor-de-cabeça” hehehe

A voz ecoava mas não sabiam de onde vinha, os comerciantes saíam de suas lojas, a maioria demonstrava alegria quando me via passar cantando. Que bom, é uma poesia do amor, do delírio, da alegria.


7 de julho: Rodoviária

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Nesta quinta-feira se observou que o Lirismo é contagiante! Este fenômeno estava manifesto em outras ocasiões, de diferentes maneiras, mas neste caso foi ainda mais inusitado.

Uma mulher, vestida dignamente, de mãos dadas com uma criança, passou a me seguir por toda Rodoviária e emitir seus próprios sons agudos.
Ela realmente soltou a voz e outras mulheres em volta se juntaram e também se envolveram com o Lirismo.

Neste dia uma Revolução Molecular ocorreu na Rodoviária, foram diversas manifestações, olhares curiosos, contemplações e boas risadas.


10 de julho: Aterro do Flamengo

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Foto de Viviane Rangel 2013

 

MAM

(10)Uma acústica especial. Um super-efeito de reverb natural. Logo no início de dia no MAM a performance correu suave pelos espaços.

Os montadores de exposição no andar debaixo rasgavam os tecidos com faca para observar pelas frestas o que estava acontecendo ali. Ao ver a mulher lírica diziam “brava”.Como em todos os lugares por onde o Lirismo passou, as pessoas “sacam” seus celulares para filmar o ocorrido. Já no espaço fora do MAM muitas “tribos” diferentes se encontravam. Formandos de Administração ou Direito, adultos e crianças curtindo o dia de lazer.

Como é um espaço de arte, onde ocorrem e já ocorreram performances, intervenções e  instalações de toda ordem, a relação com o ocorrido não era exatamente de surpresa, mas alguma dúvida. Ali a performer era mais uma pessoa experimentando as possibilidades acústicas daquele espaço do que uma “louca”, “eufórica” ou algo mais fora da “normalidade”.Um belo domingo para uma bela paisagem.

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