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Barcelona mi Amor…

barcelonamiamor

Tento imaginar uma trilha sonora que me embalasse naquele ano “sabático”. Algo peculiar, algum Almodóvar, Luz Casal, algo que lembrasse Gaudi ou Dali, mas o som é eletrônico, das boates de Londres e Ibiza: “what are we supposed to do, after all we’ve been through…”. Gostaria de algo tender, menos dramático, mas a noite é hardcore, a aventura de lançar no mundo é para os fortes, tomar o risco é para os sonhadores, e, amor mesmo, é um luxo, que as vezes substituímos por outros luxos, como um bom vinho, um bom chocolate, champagne, ou outros estimulantes ou anestesiantes.
Sossega leão do meu coração, Romeu e Julieta poderia ser apenas uma sobremesa, mas se encaixa também em histórias de sereias, e suas famílias de elementais, que nem sempre aprovam a união da sua linhagem com tipos muito distantes, distintos, distoantes.
Dormir pra quê? Amanhecia o dia com taquicardias, um niilismo comemorado em alto e bom som, no balanço do mar, com eventuais picadas de águas marinhas, banhos de lama antiga a beira do mar e dos penhascos.

Prelúdio.
Arquitetura singular, ambiente ensolarado, ciclovias amplas. O indivíduo empodera a cidade! O seu bem-estar, a sua consciência, seriedade, e mais, a defesa da diversidade através da língua.
Complexidades, surrealismos, becos, vielas…
Um antigo amigo, colega de ativismo adolescente, e dos poucos dentro do mundo da arte, fez contato pelo Orkut: “She is a Godess swimming around us.”
Parece que antes do Facebook as pessoas tinham mais amor no coração? =) … Não economizavam elogios enaltecedores…recebi algumas dedicatórias de amigos e amigas que nos dias de hoje se distanciam na alma…

Pois bem, emocionada com tal revelação, perguntei ao “nobre colega”, como vai a vida, onde estava, o que fazia… E, olha que incrível, eu estava em Barcelona, e meu coleguinha dos “tempos revolucionários juvenis” também!
Aterrisei meu “pára-quedas” no Hangar de Barcelona, assisti a palestra de Theremin do Smirnov, me joguei na Riereta, logo no dia seguinte da “visita antropológica” ao ‘guetto’, e botei o Theremin pra funcionar no Max Msp, versão Trial…
Bom, pra quem estava com o laptop vibrando de energia, com novos softwares para gravações de áudio e performances, a conexão foi realmente direcionada pelos deuses!

Força maior..
No auditório deste grande centro cultural, lá estavam eles, ele, e ela!
A moça curiosa testa o Reactable, logo depois da palestra do Sergi e toda equipe de pesquisa. Bom, uma palestra em catalão não foi assim um “big welcome”, mas dá pra entender o ponto pacífico… =)
Bem ali ao lado, havia um rapaz, com suas próprias histórias que nem sei, nem ela sabia, mas menos ainda eles um dia saberiam que iriam se reencontrar, sem terem antes se encontrado! Confuso?
Os planetas giram no espaço, com sua beleza peculiar. Um peso suspenso, como sinto meu útero em dias de maré cheia.
Por isso nosso mundo interno também gira, e estamos tão conectados, que pode ser assustador acreditar nesses sucessos.
Eu chamo isso de amor, não quero, nem posso, ver outra coisa! A rendição ao acaso acelera o ritmo, estimula os fluídos e fluxos, e enche de luz, o olhar! Não sei você, mas eu só vivo para acreditar que isto acontece, sempre poderá acontecer, de novo, e novamente!
A maestria de tornar idéias complexas, e mesmo sonhos,- aparentemente-, pouco prováveis, realidade, fazia parte de toda energia que envolvia aquele ambiente.
Tecnologias de inovação, desafios postos, vencidos e ainda por vir!
Novos paradigmas, muitas dúvidas, poucas certezas, e a firmeza em aceitar o que não se entende, o que não se sabe, o que não se pode controlar.
( “o que será que será, que não têm vergonha, nem nunca terá”?)
Hibridismos, “melting pots”, multiculturalismos, o coração aberto para o mundo, aceitando-o, tal qual ele é, torna mesmo as situações mais duras, leves, suaves.
Eu falei que amor é acaso? Amor é um UFO, um OVNI. Precisamos mobilizar a NASA para explorá-lo, resgatá-lo do espaço.
Mas tou sabendo que os mais pessimistas o tratam como vírus, e vão em busca das suas vacinas, toda proteção é necessária!
Tentamos fabricar em pílulas, mas não existe remédio sem efeito colateral. O que podemos é equalizar, com as doses mais acertadas.
Por enquanto, criamos e perseguimos UTOPIAS, algo que sou adepta, e considero o mais saudável, positivo e romântico, a ser feito.
215568975262215568995262215568990262 (Fotos_Barcelona 2007).

Titan

Quantas pessoas ousam transformar seu universo particular? Quantos níveis de consciência precisam se encontrar, e, se entender, evoluir, para uma transformação efetiva, em grupo?

A força do reflexo das ações individuais, num meio coletivo, é bastante subestimada, comumente, por ignorância.

Vejamos no plano jurídico: na maior parte das vezes, insatizfações e queixas individuais, levadas a evidência, fizeram com que uma ação de sucesso abrisse precedente para muitas outras, onde percebe-se que, não apenas aquele indivíduo que moveu a ação estava sendo prejudicado, mas muitos outros, num contexto social.

O indivíduo reflete uma “ponta de iceberg”, por isto, o indivíduo de ação se torna perigoso ao ‘status quo’. Vejamos também que nas sociedades consideradas mais “civilizadas”, o respeito aos direitos individuais é maior, o que torna mais difícil uma série de desvios no plano social e econômico. São mais “civilizadas” por que as ações cíveis são extremamente efetivas, e a punição dada pelos juízes/autoridades é suficientemente rigorosa para fazer com que os infratores se corrijam, e se precavenham de futuras ações individuais.

No Brasil, por exemplo, as ações cíveis possuem valores tão baixos, que vale mais a pena para as empresas, continuarem com os erros, do que efetuar mudanças que tragam benefícios e avanços nos serviços, para todos. Diz-se por aí, que os juízes ainda criticam os consumidores, acusando-os de quererem “viver” de ações cíveis… Enfim, desvios de pensamento e entendimento até mesmo em quem esperamos que sejam suficientemente cultos e informados, para exercer punições efetivas, e assim vivemos em uma sociedade de grande circulação de riqueza, porém pouco civilizada!

Neste contexto, onde “tirar vantagem” de algumas debilidades do sistema, compensa mais do que procurar agir corretamente, com uma visão de futuro, e de cidade que funcione, a arte também é bastante mal interpretada.

Um sistema débil e doentio, que vive invertendo valores, onde se ignora o entendimento de co-dependência social, de inter-dependência, onde não se pensa em fazer o certo, por que apenas se entende que pensar com solidariedade é religioso, medieval, e não dá lucros. Pouco se avalia os reflexos desta atitude voraz na sua própria vida, e não estamos falando de “karma” ou “pecado”, estamos falando de violência, qualidade de vida e futuro para os que ficam.

Pois bem, dentro do universo político, nota-se que as pessoas que se dizem comprometidas com mudanças, muitas vezes vêem a arte como um “capricho”, um luxo, um algo que só fortalece o “ego” de quem faz, e/ou que apenas “lucra” quem recebe por este tipo de trabalho, que aliás, por toda esta ignorância, o trabalho com a arte é também visto mais como “hobby”, e pouco como trabalho! Uma leviandade que elimina todos os investimentos empregados pelo artista, tanto financeiros como de tempo, estudo, experiência.

Diferente de muitas outras profissões, no trabalho artístico, conquistas extraordinárias nem sempre contam como um degrau a mais no trajeto profissional. São, na maior parte das vezes, profissionais submetidos a um tipo de sujeição covarde e grande desrespeito, onde quem perde é a sociedade, mas como entender isto?

Como entender que não se importar com o ‘modus operandi’ que parece prejudicar “apenas” os artistas, não está “apenas” prejudicando a vida pessoal desta ou daquela pessoa, mas alimentando desvios que explodem em coisas bem piores no contexto social?

Nesta citação da aula de Claudio Ulpiano, uma bela passagem:

Quando o sujeito artista quebra o domínio do sujeito pessoal e libera o que se chama a faculdade do PENSAMENTO PURO, essa faculdade começa a expressar os MUNDOS POSSÍVEIS.”

E estes “mundos possíveis” nunca dizem apenas respeito aquele único indivíduo, naquele momento! Será que é tão difícil assim de entender? Toda a história, das cavernas aos tempos atuais, não são contadas e registradas pelo mundo da imagem e do pensamento, da poesia e da canção? Tudo isto não nos serviu de lição todos estes dias, de milhares e milhões de anos, para que avancemos um pouco mais dentro da comunicação, do convívio, do entendimento e do cuidado consigo, com o outro, com o entorno?

Precisamos ainda de um tipo de atitude como “não é um problema meu”, “isto não me toca”, entre outras manifestações de desvios de pensamento e entendimento, que sequer vale a pena citar aqui?

Se a frustração que estão todos, de algum modo, submetidos, sem se perguntar muito os porquês, não fosse tão nociva, não teríamos cristãos raivosos berrando nas praças públicas, e em todos os lugares, coisas horrendas, e terríveis, desagradáveis de se ouvir, e terríveis até mais para eles: “você é pecador, você merece o inferno”, entre outros sinais de desequilíbrio psíquico, algo bem distante da serenidade que suponhamos ser a virtude do homem e da mulher religioso/a!

Pois é justamente esta frustração que te faz invejar e querer ser cruel. Somados aos traumas, são estes sentimentos que te levam a praticar a maldade, e ultrapassar os limites que podem levar a cobiça e ganância. Sendo a guerra, a violência, este sentimento interno indomável quando lhe falta a fé.

Muitos usam o escudo da fé, mas se realmente se sentissem “os bem aventurados filhos de Deus” não teriam o apego ao poder que estimula sentimentos de vingança.

Esta é uma realidade psíquica da barbárie, e a arte opera num plano demasiado sutil para que lhe dêem livre passagem, dentro das regras fundamentais de respeito, a que devemos a qualquer profissão, que, de um modo ou de outro, opera no coletivo social, compartilha com a sociedade, e promove mudanças no plano cognitivo e educacional, como todo conhecimento compartilhado, seja pela fala, pela escrita, ou pelos meios auditivos e visuais.

incubadora
Laboratorio
sereialabpre

Exposição em formato de LABORATÓRIO,
INCUBADORA aberta a visitação pública,
boas idéias merecem crescer e serem vistas!
Artistas podem desenvolver propostas inovadoras.
Inovação social é ação subjetiva na cultura!
Desafios cognitivos, onde o público vê no artista, uma espécie de TUTORIAL de novas formas de comunicação.
REVOLUÇÃO que vêm de dentro. O espaço da INSTALAÇÃO é espaço de encontro, onde o indivíduo pode perguntar, debater, cooperar, propor, operar, ou simplesmente refletir, silenciar, dormir, meditar!
O Laboratório Intuitivo Inventivo Sensorial é matrix de desenvolvimento processual: aquilo que não se vê, ou se entende de imediato, é o que realmente move!

*watch out, we are coming!* ;-)

DESNUDO

artesquemaSoundBare

A relação física sensorial entre o som e o corpo se desnuda no alcance do gesto.
Tintas conduzem fluxos, eletricidades. E o som também as conduz, sem que se vista de cabos.
Física quântica que não se vê a luz, se veste.

Eu me visto do vazio, e brinco com ele, por que sinto seu som passeando através do espaço.
O tempo real e virtual aguça os sentidos.

Não busco sentido no que vejo, e nem mesmo no que sinto. Sinto.
Nem muito, mas muito.
Sinto mais.

(pintura/sketch: arte esquema Sound Bare)

O que será QUE será?

Nesta versão -tipo- “flashmob”. as meninas: “moça, você é maravilhosa!”. Já os homens pararam, atônitos. Os jovens se divertiram, e os mais velhos apreciaram com gosto.

Uma ação performática lírica, solitária, e, ‘a capella’, é bem mais radical e visceral que um “flash mob”, como se têm visto em alguns lugares do mundo… A começar, ações deste porte, em coletivo, vão requerer uma super-produção, ao menos, para serem vistas como um belo “produto final” na rede. E, uma vez iniciadas, se pode perceber que é algo bem planejado.

No caso desta performance, pairou a dúvida. As pessoas sabiam que era um fato inusitado, e certamente se perguntavam o que era: um tipo de “pegadinha”? uma promoção para TV? um presente do Shopping para os seus clientes?

E a resposta é… nenhuma dessas… uma artista solitária fazendo correr sua voz no espaço… =)

pinturas2014_2-6

Neste mundo, nada é mais maleável e frágil quanto a água. Contudo, ninguém, por mais poderoso que seja, resiste à sua ação (corrosão, desgaste, choque de ondas), ou pode viver sem ela. Não é bastante claro que a flexibilidade é mais eficaz que a rigidez? Poucos agem de acordo com essa convicção.

Lao-Tsé

… vou me reciclando, e superando os limites do tempo, fazendo o quanto possa
minha estrela cadente já passeava os instantes de outrora… (algo escrito, possivelmente, em 2008… a pintura no papelão é atual…)

desenho80s
Atrás deste desenho, feito com esferográfica, em alguma aula que não conseguia me concentrar nos tempos de colégio, haviam “mil” rabiscos, entre eles, eu dizia: “não gostaria que essa folha ficasse perdida, parece que têm um mundo.”
E foi, realmente, reencontrada!
Um oceano de palavras e citações, e essa do Shakespeare, que parece uma tradução bem mais interessante do que qualquer outra que pesquisei agora pra comprovar a veracidade…

Todo mundo é um palco
um palco onde cada homem tem que representar um papel.
Há um lugar, e maneiras, de se representar o papel
para cada homem vivo.

Um palco, uma folha de papel, um cinema bidimensional: “dogville”. Bom lembrar, vou conferir novamente! ;-)

opaquelandscape

Em nós estão todas as memórias do universo

O ser humano é o último ser de grande porte a entrar no processo da evolução por nós conhecido. Como não existe somente matéria e energia mas também informação, esta vem estocada em forma de memória, em todos os seres e em nós ao longo de todas as fases do processo cosmogênico. Em nossa memória, reboam as últimas reminiscências do big bang que deu origem ao nosso cosmos. Nos arquivos de nossa memória são guardadas as vibrações energéticas oriundas das inimagináveis explosões das grandes estrelas vermelhas das quais vieram as supernovas e os conglomerados de galáxias, cada qual com suas bilhões de estrelas e planetas e asteroides. Nela se encontram ainda ressonâncias do calor gerado pela destruição de galáxias umas devorando outras, do fogo originário das estrelas e dos planetas ao seu redor, da incandescência da Terra, do fragor dos líquidos que caíram por 100 milhões de anos por sobre o nosso planeta até resfriá-lo (era hadeana), da exuberância das florestas ancestrais, reminiscências da voracidade dos dinossauros que reinaram, soberanos, por 135 milhões de anos, da agressividade dos nossos ancestrais no afã de sobreviver, do entusiasmo pelo fogo que ilumina e cozinha, da alegria pelo primeiro símbolo criado e pela primeira palavra pronunciada, reminiscências da suavidade das brisas leves, das manhãs diáfanas, do alcantilado das montanhas cobertas de neve, por fim, lembranças da interdependências entre todos os seres, criando a comunidade dos viventes, do encontro com o outro, capaz de ternura, entrega e amor e finalmente, do êxtase da descoberta do mistério do mundo que todos chamam por mil nomes e nós por Deus. Tudo isso está sepultado em algum canto de nossa psiqué e no código genético de cada célula de nosso corpo, porque somos tão ancestrais quanto o universo.
Nós não vivemos neste universo nem sobre a nossa Terra como seres erráticos. Nós viemos do útero comum donde vieram todas as coisas, da Energia de Fundo ou do Abismo Alimentador de todos os seres, do hádrion primordial, do top-quark up, um dos tijolinhos mais ancestrais do edifício cósmico até o computador atual. E somos filhos e filhas da Terra. Mais. Somos aquela parte da Terra que anda e dança, que freme de emoção e pensa, que quer e ama, que se extasia e venera o Mistério.Todas estas coisas estiveram virtualmente no universo, se condensaram em nosso sistema solar e só depois irromperam concretas na nossa Terra. Porque tudo isso estava virtualmente lá, pode estar agora aqui em nossas vidas.
O princípio cosmogênico, vale dizer, aquelas energias diretoras que comandam, cheias de propósito, todo o processo evolucionário obedecem a seguinte lógica tão bem e exposta por E. Morin, ordem, desordem, interação, nova ordem, nova desordem, novamente interação e assim sempre. Com essa lógica criam-se sempre mais complexidades e diferenciações; e na mesma proporção vão se criando interioridade e subjetividade até a sua expressão lúcida e consciente que é a mente humana. E simultaneamente e também na mesma proporção vai se gestando a capacidade de reciprocidade de todos com todos, em todos os momentos e em todas as situações. Diferenciação /interioridade/ comunhão: eis a trindade cósmica que preside o organismo do universo.
Tudo vai acontecendo processualmente e evolutivamente submetido ao não-equilíbrio dinâmico (caos) que busca sempre um novo equilíbrio, através de adaptações e interdependências.
A existência humana não está fora desta dinâmica. Tem dentro de si estas constantes cósmicas de caos e de cosmos, de não-equilíbrio em busca de um novo equilíbrio. Enquanto estivermos vivos nos encontramos sempre enredados nesta condição. Quanto mais próximos do equilíbrio total mais próximos da morte. A morte é a fixação do equilíbrio e do processo cosmogênico. Ou a sua passagem para um nível que demanda outra forma de acesso e de conhecimento.
Como esta estrutura concretamente se dá em nós? Antes de mais nada pelo cotidiano. Cada qual vive o seu cotidiano que começa com a toillete pessoal, o jeito como mora, o que come, o trabalho, as relações familiares, os amigos, o amor. O cotidiano é prosaico e, não raro, carregado de desencanto. A maioria da humanidade vive restrita ao cotidiano com o anonimato que ele envolve. É o lado da ordem universal que emerge na vida das pessoas.
Mas os seres humanos são também habitados pela imaginação. Ela rompe as barreiras do cotidiano e busca o novo. A imaginação é, por essência, fecunda; é o reino do poético, das probabilidades de si infinitas (de natureza quântica). Imaginamos nova vida, nova casa, novo trabalho, novos prazeres, novos relacionamentos,novo amor. A imaginação produz a crise existencial e o caos na ordem cotidiana.
É da sabedoria de cada um articular o cotidiano com o imaginário, o prosaico com o poético e retrabalhar a desordem e a ordem. Se alguém se entrega só ao imaginário, pode estar fazendo uma viagem, voa pelas nuvens esquecido da Terra e pode acabar numa clínica psiquiátrica. Pode também negar a força sedutora do imaginário, sacralizar o cotidiano e sepultar-se, vivo, dentro dele. Então se mostra pesado, desinteressante e frustrado. Rompe com a lógica do movimento universal.
Quando alguém, entretanto, assume seu cotidiano e o vivifica com injeções de criação então começa a irradiar uma rara energia interior percebida pelos que com ele convivem.
* Leonardo Boff – teólogo, escritor. Escreveu O despertar da águia: o sim-bólico e o dia-bólico como construção da realidade, Vozes 2002.

(e a pintura: “opaque landscape”, Elen Nas)

diasdpedraedit

PRESSÁGIO

VI

Água esparramada em cristal,
buraco de concha,
segredarei em teus ouvidos
os meus tormentos.
Apareceu qualquer cousa
em minha vida toda cinza,
embaçada, como água
esparramada em cristal.
Ritmo colorido
dos meus dias de espera,
duas, três, quatro horas,
e os teus ouvidos
eram buracos de concha,
retorcidos
no desespero de não querer ouvir.

Me fizeram de pedra
quando eu queria
ser feita de amor.

Mar Absoluto

marabsoluto

Foi desde sempre o mar,
E multidões passadas me empurravam
como o barco esquecido.

Agora recordo que falavam
da revolta dos ventos,
de linhos, de cordas, de ferros,
de sereias dadas à costa.

E o rosto de meus avós estava caído
pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas,
e pelos mares do Norte, duros de gelo.

Então, é comigo que falam,
sou eu que devo ir.
Porque não há ninguém,
tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.

E tenho de procurar meus tios remotos afogados.
Tenho de levar-lhes redes de rezas,
campos convertidos em velas,
barcas sobrenaturais
com peixes mensageiros
e cantos náuticos.

E fico tonta.
acordada de repente nas praias tumultuosas.
E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos.
“Para adiante! Pelo mar largo!
Livrando o corpo da lição da areia!
Ao mar! – Disciplina humana para a empresa da vida!”
Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas.
A solidez da terra, monótona,
parece-nos fraca ilusão.
Queremos a ilusão grande do mar,
multiplicada em suas malhas de perigo.

Queremos a sua solidão robusta,
uma solidão para todos os lados,
uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo,
e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.

O alento heróico do mar tem seu pólo secreto,
que os homens sentem, seduzidos e medrosos.

O mar é só mar, desprovido de apegos,
matando-se e recuperando-se,
correndo como um touro azul por sua própria sombra,
e arremetendo com bravura contra ninguém,
e sendo depois a pura sombra de si mesmo,
por si mesmo vencido. É o seu grande exercício.

Não precisa do destino fixo da terra,
ele que, ao mesmo tempo,
é o dançarino e a sua dança.

Tem um reino de metamorfose, para experiência:
seu corpo é o seu próprio jogo,
e sua eternidade lúdica
não apenas gratuita: mas perfeita.

Baralha seus altos contrastes:
cavalo, épico, anêmona suave,
entrega-se todos, despreza ritmo
jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, mas é desfolhado,
cego, nu, dono apenas de si,
da sua terminante grandeza despojada.

Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões:
água de todas as possibilidades,
mas sem fraqueza nenhuma.

E assim como água fala-me.
Atira-me búzios, como lembranças de sua voz,
e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino.

Não me chama para que siga por cima dele,
nem por dentro de si:
mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom.
Não me quer arrastar como meus tios outrora,
nem lentamente conduzida.
como meus avós, de serenos olhos certeiros.

Aceita-me apenas convertida em sua natureza:
plástica, fluida, disponível,
igual a ele, em constante solilóquio,
sem exigências de princípio e fim,
desprendida de terra e céu.

E eu, que viera cautelosa,
por procurar gente passada,
suspeito que me enganei,
que há outras ordens, que não foram ouvidas;
que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos,
e o mar a que me mandam não é apenas este mar.

Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças,
mas outro, que se parece com ele
como se parecem os vultos dos sonhos dormidos.
E entre água e estrela estudo a solidão.

E recordo minha herança de cordas e âncoras,
e encontro tudo sobre-humano.
E este mar visível levanta para mim
uma face espantosa.

E retrai-se, ao dizer-me o que preciso.
E é logo uma pequena concha fervilhante,
nódoa líquida e instável,
célula azul sumindo-se
no reino de um outro mar:
ah! do Mar Absoluto.

(poema Cecília Meireles, pintura em aquarela Elen Nas)

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