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Zona

Painel da exposição "Lirismo na Rua" - Elen Nas

Painel da exposição “Lirismo na Rua” – Elen Nas

Zonas:
O corpo inteiro – quer dizer, a pele toda inteira – é suscetível, como bem observa Freud, de converter qualquer lugar de sua superfície em zona erógena. Ou seja, em uma zona onde a sensibilidade se abre ao

desejo sexual. Este desejo, na verdade, é um desejo que carrega todo o corpo e especialmente o corpo enquanto pele, ou seja, um corpo afastado seus órgãos e suas funções (embora a função reprodutiva esteja presente, ainda assim não é necessariamente sempre buscada – e talvez por aí tenhamos a indicação de que a reprodução é em si algo (a) mais e diferente de uma função). Um corpo para além das funções, um corpo que já não está mais apenas no mundo da percepção e da ação, mas que é uma pele no mundo de outra pele.
Uma zona não é um lugar, de fato. Nem uma região, nem um lugar, nem um terreno. Isso seria antes de tudo uma desterritorialização diretamente no território ou um território como uma divisão e deiscência de si mesmo. A palavra grega zone é formada sobre o ato de se cingir; a cintura de muitas roupas antigas servia para variar o comprimento da vestimenta, retido por cima dela e em cuja caimento se produziam diversos efeitos de plissados e drapeados. Da mesma maneira como zoner na gíria francesa contemporânea [argot] significa “andar sem rumo” e refere-se à zona enquanto área suburbana mal definida e mal frequentada, da mesma forma a pele zoneada é a pele erotizada, não-relacionada às funções dérmicas ou dermatológicas, mas à finalidade sem fim de sexo, seja para gozo ou para reprodução.
Pois a reprodução tem um fim apenas, a saber, o advento de um ser ele-mesmo aberto para além de qualquer finalidade e é também porque gozar se lhe associa, enquanto seu próprio fim infinalizável. Quando o gozo é associado a uma concepção, é o gozo do ser que está por vir, de sua vinda, de início, e depois do seu próprio gozo, que se encontra aberto.
A zona representa uma distinção, uma diferenciação não somente conforme à extensão, mas de acordo com a finalidade e a construção do corpo. É uma forma de desconstrução, incluindo um acesso à strução [struction] – o amontoamento caótico, ao invés de um conjunto coerente. Cada zona goza por si mesma e segundo uma distribuição própria a cada uma. Quando se trata das zonas ditas “genitais”, ocorre um retorno para a função e para o órgão ao mesmo tempo em que a excitação cresce e derrama-se ( y = nessas zonas) em conformidade com as alterações da pele, em tecidos chamados de “muco-cutâneos” na poesia anatômica.
Mesmo quando permanece cutânea ou dérmica, a zona já engaja a pele em uma variação de seu modo ou de seu regime. Já não envolve mais (função cutânea), a palavra grega kutos que resultou em cyto, prefixo celular) e já não protege mais (função dérmica), derma tendo sido originariamente a pele desanexada da pele, couro ou película: antes ela desprega e expõe.
11 A la recherche du temps perdu, « A l’ombre des jeunes filles en fleurs », Pléiade, vol. I, p. 71.
Fala-se de “reação epidérmica” tanto em um sentido totalmente psicológico como também fisiológico, precisamente porque, em matéria de pele, os dois registros são, talvez (mais) do que em outros contextos, duas dimensões do mesmo ser. A epiderme é a pele erguendo-se para fora de sua superfície, se eriçando ou se colorindo, se estremecendo ou se retraindo. É onde a pele entra em mimesis e em methexis: reproduzindo signos (“carne de galinha”[NT: chair de poule: pele arrepiada] por exemplo) e tomando parte na desordem.
A zona constitui uma possibilidade de desordens. É um mar agitado por ventos, uma terra sacudida por dançarinos, uma nuvem pressionada ou esticada, um vôo, uma batida, uma palpitação. Quando se encontram no abraço, as peles se separam tanto como é possível de sua natureza de invólucro e de fronteira: assumem muito mais o aspecto de adesivos, argamassas, ou ainda de fitas, laços, cintas, bandas e lianas, também de bandeiras, de velas içadas e de cordas que as arriam. As peles alçam voo e se amontoam, se enceram, se enrugam e se molham.
As zonas são afligidas por cócegas, formigamentos, levadas a se estremecer, a tremer, a rir também e a se irritar, devoradas por inflamações, azedas como frutas verdes, impacientes, febris). São peles sonoras, quem grunhe, gemem, clamam, sopram. Peles que esfregam e misturam seus suores, seus humores, suas espumas. Peles excitadas, excedidas, exasperadas, encantadas: existências exorbitadas, desnudadas .
[…]

Pele Essencial
Jean Luc Nancy
Texto escrito para o simpósio “Cuerpo y corporalidades”, USFQ-CAC, Quito/Equador, 21-23 de novembro de 2013 Versão em português por Charles Feitosa

Tabu

ET cópia

Tocar tabu
Nenhum tabu é mais difundido do que o de tocar, desde as regras múltiplas e complexas de certos
códigos rituais (tocar os mortos, tocar objetos sagrados, partes do corpo, vestuário, etc.) até as atuais regras do contato (por exemplo o simples contato acidental de mãos em uma multidão). Em um sentido amplo, pode-se dizer ainda que “tabu” significa “proibido de tocar”. Não é por acaso que Marcel
Duchamp tenha intitulado “Favor, tocar” a imagem em relevo de um seio afixada na capa de um catálogo de exposição. Tocar implica sempre mais e menos do que o que é evocado pela palavra “contato”. Mais? Porque o contato é reduzido a uma configuração em relação – é por isso que o termo pode ter um sentido técnico e funcional – enquanto o tocar comete ou pelo menos evoca uma intimidade, mas menos na medida em que o contato garante uma transmissão (de informação ou de energia), enquanto o toque não comunica nada determinado: ele se aproxima, ensaia, apalpa ou sonda (aproxima, experimenta, tateia ou apalpa (tâter)). Esse verbo significa ambos, “experimentar pelo toque” e o “tocar suavemente“, ao passo que “tatear” [tâtonner] indica o tocar meio hesitante de alguém que procura orientar-se sem ver.

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Tocar se funda na obscuridade. Sob os meus dedos, a luminosidade do corpo do outro é transformada na noite que é criada entre nossas duas peles. Esta noite nos é comum, aproxima-nos e separa-nos ao mesmo tempo. Tocar não abole jamais a distância entre nós, mas faz a distância se metamorfosear em aproximação. Não em contato, mas sim na vinda. Não na presença, mas sim na aparição. Não o “estar aí” mas em uma maneira de “passar por aí”, de assombrar, de frequentar – palavra estranha que este verbo (francês, espanhol, italiano, às vezes importado do inglês) mudou de valor de “grande número, multidão, assembléia” para o sentido “relações repetidas, assíduas” até eventualmente designar (em uma linguagem um tanto desatualizada) a abordagem amorosa (entre “fazer a corte” (cortejar, galantear) e “sair com” como se diz hoje).
O tocar frequenta a pele: se aproxima, visita-a, a observa – também na acepção de “olhar, examinar” apenas no sentido de “respeitar, conformar-se”. Tocar é um olhar que se conforma plenamente a seu objeto e é por esta razão que ele o retira da objetividade do visível, não o coloca mais diante dele, mas contra ele.
A pele, contra pele, (O contato pele a pele) se conecta, se adapta, se põe de acordo com suas linhas, seus modelos, seus pensamentos ligeiros, voláteis, cujos aromas flutuam nela. O tabu está aí, no intervalo delicado das peles, no entre-dois onde não para de vibrar a freqüência muito alta do íntimo, ou seja, deste superlativo do interior, de tal modo que nada o pode exceder, se não por uma comparação, por definição impossível: interior intimo meo, é o Deus de Agostinho, mas é evidente que foi em uma carícia que ele descobriu essa formulação.
O tabu pronuncia: não me toque, toque em mim mas longe de mim.
Assim, Proust escreveu: “meus olhos pousavam sobre sua pele e meus lábios, a rigor, poderiam ter acreditado que tinham seguido o meu olhar. Mas não era só seu corpo que eu queria alcançar, era também a pessoa que vivia nele e com a qual havia apenas um tipo de carícia, capaz de chamar sua atenção, com a qual havia apenas um tipo de penetração, capaz de despertar nela uma idéia.11

Pele Essencial
Jean Luc Nancy
Texto escrito para o simpósio “Cuerpo y corporalidades”, USFQ-CAC, Quito/Equador, 21-23 de novembro de 2013 Versão em português por Charles Feitosa

A flor da pele

fotowebnow

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A flor designa a extremidade da planta e daí leva em latim o significado de «parte mais nobre», da mesma maneira que (a flor) da farinha, do sal ou do cobre. A flor é espuma, flocos, pó ou perfume, flagrância de superfície. É leve, suave, dificilmente palpável, ao mesmo tempo que oferece o aspecto o mais delicado, mais refinado, sutil e sensível da substância da qual apresenta a face ou de cuja aparição ela efetua. Na flor também vem a cor, a intensidade da substância jorrando para fora de si. A flor é excitação: chamado ao fora, chamado de fora.
“À for da pele” é o roçar: a passagem mais próxima possível, o contato mais leve também, mas sem permanecer à margem. Tocando de modo a não se apoiar. Tocando menos a pele do que sua flor: sua penugem ou ela mesma, na medida em que faz voltada para fora, a película ínfima de sua face exposta, desprovida de espessura e signo e ainda assim, de uma profundidade infinita. Signo ou sinal, presságio, promessa. A pele promete nunca parar de se espalhar, de se oferecer, de se aprofundar. Ela garante que este corpo está todo nela, que ela mesma é este corpo e, portanto, que é sua alma.
O corpo floresce, eclode em sua pele, a pele é sua eclosão. É isto que se nomeia alma ou vida, mistério, presença e fascínio. Também é seu rosto, sua tez, seus modos, seu caráter, seu pensamento, sua verdade. A flor anuncia o fruto, que é a resposta ao seu apelo, o encher-se de uma nova carne sob uma nova pele, outra intensidade cromática (chrôma refere-se originariamente à tez da pele) e a iminência de um sabor e de um suco, licor saído da carne.
Associações de pele e frutos são freqüentes: uma pele de pêssego, bochechas como uma maçã, “teus seios são cachos de minha vinha”, e toda a magia das máscaras de morango, kiwi, abacate ou do limão… Pele anuncia e promete a fruição [fruition], esse termo desaparecido em francês que agora reaparece em inglês e que é um equivalente de gozo [juissance]. Como o último, a fruição se presta à ambivalência – ou simplesmente ao ambitus, no sentido musical – isto que se joga entre a posse e o júbilo. No entanto esta ambivalência e este ambitus se dão diretamente na pele: a tomamos, a aproveitamos e nos abandonamos a ela, a gozamos.
A carícia aflora e faz aflorar sua réplica: o estremecimento da pele que responde e que vem ao encontro. O simples contato com a pele já implica o acordo de uma proximidade ou ao menos a garantia de uma benevolência: shake hand, abrazo, accolade [NT: saudação carinhosa em francês – accolade é um abraço, nao bem apertado, como nós fazemos, é um abracinho, sem muito contato físico] ou hongi (esfregar os narizes em maori), sem excluir as saudações onde os corpos não se tocam entre eles mas cada um a si próprio (mão no coração, reverência para o chão…). Mas a carícia abre mais e menos do que um contato, ela se move e se comove, se ela é recebida. É por isso que ele se move e repete seu movimento. Ele toca no sentido em que estremece, perturba, agita ou chacoalha, excita e acalma-se a si própria, tanto quanto a outra pele.

Do texticulo “Pele Essencial”: Jean Luc Nancy
Texto escrito para o simpósio “Cuerpo y corporalidades”, USFQ-CAC, Quito/Equador, 21-23 de novembro de 2013 Versão em português por Charles Feitosa

instantânea de webcam hoje

instantânea de webcam hoje

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

1ª publ. in Presença , nº 37. Coimbra: Fev. 1933.Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa.

FÔLEGO

Elen Nas, aquarelas.

Elen Nas, aquarelas.

A POESIA,
JOGUEI NUMA GAVETA.
PENSEI QUE ERA VOCÊ BATENDO A PORTA,
NÃO ERA.
ALIÁS, QUEM ERA?
UM SOPRO DE VIDA, JOGUEI ALI.
DESTROÇOS, DESGASTE,
MINHA VIDA POR UM FIO.
NÃO ENCHA MAIS ESSE COPO,
QUERO ESSE COPO VAZIO.
ESSE RITMO ME ACELERA E EU BALANÇO.
MAS NÃO VOU CORRER COM O CORAÇÃO,
O CORAÇÃO CORRE POR MIM.
EU FINJO QUE AGORA TÁ DIFERENTE,
MELHOR OU RUIM,
MAS VOU TE DIZER, A VIDA É ASSIM,
SEMPRE FOI ASSIM.
O CAOS ORGÂNICO,
ATÉ BEM ORGANIZADO.
ALGUÉM CUSPIU?
NA VERDADE, ESCARROU,
BEM AO MEU LADO…

Imortalidade x Reprodução

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Ah… a espécie humana perde o SER pelo TER… O masculino querendo acentuar a força de potência, e o feminino provendo o conforto líquido… Um desejo de abrigar, e de abrigo.  A geração Y chegou para institucionalizar a impessoalidade das relações digitais. De cinderelas a tinderelas, as moças se adaptam, a príncipes algozes, que se valorizam, desvalorizando o outro, passando por cima da delicadeza, criando relações tortuosas entre vontades, promessas e sonhos.

O sonho é aquele de sempre, se alguém aqui pensou em reprodução da espécie, precisa consumir o que o mercado oferece. Se o alimento têm agrotóxico, vai assim mesmo. Se as carnes são contaminadas com medicamentos e hormônios excessivos, vai assim mesmo. A lógica é a mesma para tudo, a lei do oeste, o bang bang, parece ter se sofisticado na medida do quase invisível. As leis de mercado são claras: seja um egocêntrico psicopata maluco desconsiderando qualquer necessidade alheia que não seja a sua própria, passe por cima, e, se der certo, faça de novo e mais vezes. Sair lucrando é isso. É simplesmente o crime perfeito, sem derramamento de sangue imediato.

Com isto, a tecnologia de mercado se supõe muito sofisticada. Você abusa de quem se deixa abusar, e utiliza isto como desculpa. Desconsidera muitas vezes a gentileza do outro, e a confunde com submissão. Aproveitar-se da boa índole alheia, aliás, se torna um vício. E, certamente, com lucros notórios, o crime, legitimado, compensa.

E o crime se legitima em uma mentalidade coletiva. Uma cultura. O machismo, por exemplo. Os recalcados que não se sentem a altura do que seria a idéia de principe, invejosos que são, baixa autoestima que têm, vão ser aqueles amigos raivosos que estão sempre com pedras na mão, para jogar nas candidatas a princesas, apontando seus interesses frios, ou supostos.

O homem se faz de vítima  da sedução feminina, e bonzinho, sem se dar conta do quanto interesseiro é, com as mulheres, para tudo. São elas por elas. Os sucessos possíveis deste mercado atraem mais pares, mais candidatos, de ambos os lados. Quem está fora do mercado está fora do mundo, e não importa quais sejam suas qualidades, vai passar as tormentas do abuso, da sujeição, dos vários assédios, morais ou sexuais. Vai ser taxado pelo que não é, por que, no final, ninguém se importa.

Casamento também é mercado. Contratual, limpo, mesmo que o jogo todo disso tudo seja sujo. E aí está o xis da questão. Tudo está interligado. Você pode sair com o seu carro blindado, sua alma blindada, que vai perder 90% das interações, e, mesmo assim, será afetado por elas.

Esta é a con-sciência que está em falta. O afetado pensa que não se deixa afetar, julga isto e aquilo o tempo todo, sem entender que falta de visão panorâmica, transversal, vive na ilusão de ter esta qualidade de olhar sempre em frente, como a mula e o burro. Bichinhos e bichinhas sagrados, como todos são, no entanto, precisamos ainda conhecer este homo spiens, cadê o homo sapiens?

No impasse, a alma de quem têm, se expande, ao infinito. Conectamos outras estrelas, outros ares, e, aí sim, conseguimos algum antídoto para a maior parte dos males.

(aquarela em algodão cru, Elen Nas, setembro 2014)

amor vincit omnia

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A dúvida mata: “bem-me-quer, mal-me-quer”. Niilismo é isso. O pessimismo sempre ganha. Se ganhar de si mesmo, venceu. Se perder, acertou. As favas o auto-boicote! Viver é quebrar-a-cara! Por que sempre puxam seu “tapete mágico”, e o meu peso flutua melhor debaixo d’ água. Secam tua água, te deixam seca, e aí? O amor vence tudo, não é mesmo?

Vou acreditar mais uma vez, e, de novo! Por que não? O que eu perco é minha ânima, se coleciono desilusão. E quem não? Quem não sonha, quem não arrisca ver o melhor adiante.

Vejo o melhor e não era nada daquilo? Mais um tombo. So what?

Sim! Eu gostaria que tudo desse certo! Estou aqui para dar certo! Faço tudo para dar certo! O que se quer de mim, eu pergunto, e me pergunto, e pergunto aos pensamentos, ao céu.

Não vou mentir. Já menti coisas bobas, e que não lhe dizem respeito. Hoje não minto nem esse pinguinho. Por que me dá preguiça depois explicar, e depois ter que emendar o que ficou pra trás.

Estou sempre aí nesse presente, pra viver e transformar. “E aí?” As pessoas me perguntam. “E aí?”, “E daí?”.
LSD foi um ano-novo em São Pedro da Serra, aos 18. Choveu muito e eu não queria me mexer de onde eu estava, debaixo da chuva.
Choveu mais, me desliguei de tudo. Me arrastaram pra fora da chuva. Eu tremia, mas não queria fazer nada. Só comecei a chorar sem parar.
Parece que tava tudo errado. Sempre pareceu que tava tudo errado.
Trocaram minha roupa, a minha revelia. Me deram roupa seca. A blusa de um amigo com a estampa do Bob Marley lilás de um lado, e, do outro uma frase do Kerouac: “minha vida que não me ama, minha amada que nunca vai me amar: seduzo as duas”
Essa foi a frase emblemática do que parecia minha salvação: seduzir o improvável, brincar com a rejeição, não se abater, nunca. E, adotar a estrada, como prinípio, meio, e fim.

(foto de webcam, em Ibiza ‘007)

Barcelona mi Amor…

barcelonamiamor

Tento imaginar uma trilha sonora que me embalasse naquele ano “sabático”. Algo peculiar, algum Almodóvar, Luz Casal, algo que lembrasse Gaudi ou Dali, mas o som é eletrônico, das boates de Londres e Ibiza: “what are we supposed to do, after all we’ve been through…”. Gostaria de algo tender, menos dramático, mas a noite é hardcore, a aventura de se lançar no mundo é para os fortes, tomar o risco é para os sonhadores, e, amor mesmo, é um luxo, que as vezes substituímos por outros luxos, como um bom vinho, um bom chocolate, champagne, ou outros estimulantes ou anestesiantes.
Sossega leão do meu coração, Romeu e Julieta poderia ser apenas uma sobremesa, mas se encaixa também em histórias de sereias, e suas famílias de elementais, que nem sempre aprovam a união da sua linhagem com tipos muito distantes, distintos, distoantes.
Dormir pra quê? Amanhecia o dia com taquicardias, um niilismo comemorado em alto e bom som, no balanço do mar, com eventuais picadas de águas marinhas, banhos de lama antiga a beira do mar e dos penhascos.

Prelúdio.
Arquitetura singular, ambiente ensolarado, ciclovias amplas. O indivíduo empodera a cidade! O seu bem-estar, a sua consciência, seriedade, e mais, a defesa da diversidade através da língua.
Complexidades, surrealismos, becos, vielas…
Um antigo amigo, colega de ativismo adolescente, e dos poucos dentro do mundo da arte, fez contato pelo Orkut: “She is a Godess swimming around us.”
Parece que antes do Facebook as pessoas tinham mais amor no coração? =) … Não economizavam elogios enaltecedores…recebi algumas dedicatórias de amigos e amigas que nos dias de hoje se distanciam na alma…

Pois bem, emocionada com tal revelação, perguntei ao “nobre colega”, como vai a vida, onde estava, o que fazia… E, olha que incrível, eu estava em Barcelona, e meu coleguinha dos “tempos revolucionários juvenis” também!
Aterrisei meu “pára-quedas” no Hangar de Barcelona, assisti a palestra de Theremin do Smirnov, me joguei na Riereta, logo no dia seguinte da “visita antropológica” ao ‘guetto’, e botei o Theremin pra funcionar no Max Msp, versão Trial…
Bom, pra quem estava com o laptop vibrando de energia, com novos softwares para gravações de áudio e performances, a conexão foi realmente direcionada pelos deuses!

Força maior..
No auditório deste grande centro cultural, lá estavam eles, ele, e ela!
A moça curiosa testa o Reactable, logo depois da palestra do Sergi e toda equipe de pesquisa. Bom, uma palestra em catalão não foi assim um “big welcome”, mas dá pra entender o ponto pacífico… =)
Bem ali ao lado, havia um rapaz, com suas próprias histórias que nem sei, nem ela sabia, mas menos ainda eles um dia saberiam que iriam se reencontrar, sem terem antes se encontrado! Confuso?
Os planetas giram no espaço, com sua beleza peculiar. Um peso suspenso, como sinto meu útero em dias de maré cheia.
Por isso nosso mundo interno também gira, e estamos tão conectados, que pode ser assustador acreditar nesses sucessos.
Eu chamo isso de amor, não quero, nem posso, ver outra coisa! A rendição ao acaso acelera o ritmo, estimula os fluídos e fluxos, e enche de luz, o olhar! Não sei você, mas eu só vivo para acreditar que isto acontece, sempre poderá acontecer, de novo, e novamente!
A maestria de tornar idéias complexas, e mesmo sonhos,- aparentemente-, pouco prováveis, realidade, fazia parte de toda energia que envolvia aquele ambiente.
Tecnologias de inovação, desafios postos, vencidos e ainda por vir!
Novos paradigmas, muitas dúvidas, poucas certezas, e a firmeza em aceitar o que não se entende, o que não se sabe, o que não se pode controlar.
( “o que será que será, que não têm vergonha, nem nunca terá”?)
Hibridismos, “melting pots”, multiculturalismos, o coração aberto para o mundo, aceitando-o, tal qual ele é, torna mesmo as situações mais duras, leves, suaves.
Eu falei que amor é acaso? Amor é um UFO, um OVNI. Precisamos mobilizar a NASA para explorá-lo, resgatá-lo do espaço.
Mas tou sabendo que os mais pessimistas o tratam como vírus, e vão em busca das suas vacinas, toda proteção é necessária!
Tentamos fabricar em pílulas, mas não existe remédio sem efeito colateral. O que podemos é equalizar, com as doses mais acertadas.
Por enquanto, criamos e perseguimos UTOPIAS, algo que sou adepta, e considero o mais saudável, positivo e romântico, a ser feito.
215568975262215568995262215568990262 (Fotos_Barcelona 2007).

Titan

Quantas pessoas ousam transformar seu universo particular? Quantos níveis de consciência precisam se encontrar, e, se entender, evoluir, para uma transformação efetiva, em grupo?

A força do reflexo das ações individuais, num meio coletivo, é bastante subestimada, comumente, por ignorância.

Vejamos no plano jurídico: na maior parte das vezes, insatizfações e queixas individuais, levadas a evidência, fizeram com que uma ação de sucesso abrisse precedente para muitas outras, onde percebe-se que, não apenas aquele indivíduo que moveu a ação estava sendo prejudicado, mas muitos outros, num contexto social.

O indivíduo reflete uma “ponta de iceberg”, por isto, o indivíduo de ação se torna perigoso ao ‘status quo’. Vejamos também que nas sociedades consideradas mais “civilizadas”, o respeito aos direitos individuais é maior, o que torna mais difícil uma série de desvios no plano social e econômico. São mais “civilizadas” por que as ações cíveis são extremamente efetivas, e a punição dada pelos juízes/autoridades é suficientemente rigorosa para fazer com que os infratores se corrijam, e se precavenham de futuras ações individuais.

No Brasil, por exemplo, as ações cíveis possuem valores tão baixos, que vale mais a pena para as empresas, continuarem com os erros, do que efetuar mudanças que tragam benefícios e avanços nos serviços, para todos. Diz-se por aí, que os juízes ainda criticam os consumidores, acusando-os de quererem “viver” de ações cíveis… Enfim, desvios de pensamento e entendimento até mesmo em quem esperamos que sejam suficientemente cultos e informados, para exercer punições efetivas, e assim vivemos em uma sociedade de grande circulação de riqueza, porém pouco civilizada!

Neste contexto, onde “tirar vantagem” de algumas debilidades do sistema, compensa mais do que procurar agir corretamente, com uma visão de futuro, e de cidade que funcione, a arte também é bastante mal interpretada.

Um sistema débil e doentio, que vive invertendo valores, onde se ignora o entendimento de co-dependência social, de inter-dependência, onde não se pensa em fazer o certo, por que apenas se entende que pensar com solidariedade é religioso, medieval, e não dá lucros. Pouco se avalia os reflexos desta atitude voraz na sua própria vida, e não estamos falando de “karma” ou “pecado”, estamos falando de violência, qualidade de vida e futuro para os que ficam.

Pois bem, dentro do universo político, nota-se que as pessoas que se dizem comprometidas com mudanças, muitas vezes vêem a arte como um “capricho”, um luxo, um algo que só fortalece o “ego” de quem faz, e/ou que apenas “lucra” quem recebe por este tipo de trabalho, que aliás, por toda esta ignorância, o trabalho com a arte é também visto mais como “hobby”, e pouco como trabalho! Uma leviandade que elimina todos os investimentos empregados pelo artista, tanto financeiros como de tempo, estudo, experiência.

Diferente de muitas outras profissões, no trabalho artístico, conquistas extraordinárias nem sempre contam como um degrau a mais no trajeto profissional. São, na maior parte das vezes, profissionais submetidos a um tipo de sujeição covarde e grande desrespeito, onde quem perde é a sociedade, mas como entender isto?

Como entender que não se importar com o ‘modus operandi’ que parece prejudicar “apenas” os artistas, não está “apenas” prejudicando a vida pessoal desta ou daquela pessoa, mas alimentando desvios que explodem em coisas bem piores no contexto social?

Nesta citação da aula de Claudio Ulpiano, uma bela passagem:

Quando o sujeito artista quebra o domínio do sujeito pessoal e libera o que se chama a faculdade do PENSAMENTO PURO, essa faculdade começa a expressar os MUNDOS POSSÍVEIS.”

E estes “mundos possíveis” nunca dizem apenas respeito aquele único indivíduo, naquele momento! Será que é tão difícil assim de entender? Toda a história, das cavernas aos tempos atuais, não são contadas e registradas pelo mundo da imagem e do pensamento, da poesia e da canção? Tudo isto não nos serviu de lição todos estes dias, de milhares e milhões de anos, para que avancemos um pouco mais dentro da comunicação, do convívio, do entendimento e do cuidado consigo, com o outro, com o entorno?

Precisamos ainda de um tipo de atitude como “não é um problema meu”, “isto não me toca”, entre outras manifestações de desvios de pensamento e entendimento, que sequer vale a pena citar aqui?

Se a frustração que estão todos, de algum modo, submetidos, sem se perguntar muito os porquês, não fosse tão nociva, não teríamos cristãos raivosos berrando nas praças públicas, e em todos os lugares, coisas horrendas, e terríveis, desagradáveis de se ouvir, e terríveis até mais para eles: “você é pecador, você merece o inferno”, entre outros sinais de desequilíbrio psíquico, algo bem distante da serenidade que suponhamos ser a virtude do homem e da mulher religioso/a!

Pois é justamente esta frustração que te faz invejar e querer ser cruel. Somados aos traumas, são estes sentimentos que te levam a praticar a maldade, e ultrapassar os limites que podem levar a cobiça e ganância. Sendo a guerra, a violência, este sentimento interno indomável quando lhe falta a fé.

Muitos usam o escudo da fé, mas se realmente se sentissem “os bem aventurados filhos de Deus” não teriam o apego ao poder que estimula sentimentos de vingança.

Esta é uma realidade psíquica da barbárie, e a arte opera num plano demasiado sutil para que lhe dêem livre passagem, dentro das regras fundamentais de respeito, a que devemos a qualquer profissão, que, de um modo ou de outro, opera no coletivo social, compartilha com a sociedade, e promove mudanças no plano cognitivo e educacional, como todo conhecimento compartilhado, seja pela fala, pela escrita, ou pelos meios auditivos e visuais.

incubadora
Laboratorio
sereialabpre

Exposição em formato de LABORATÓRIO,
INCUBADORA aberta a visitação pública,
boas idéias merecem crescer e serem vistas!
Artistas podem desenvolver propostas inovadoras.
Inovação social é ação subjetiva na cultura!
Desafios cognitivos, onde o público vê no artista, uma espécie de TUTORIAL de novas formas de comunicação.
REVOLUÇÃO que vêm de dentro. O espaço da INSTALAÇÃO é espaço de encontro, onde o indivíduo pode perguntar, debater, cooperar, propor, operar, ou simplesmente refletir, silenciar, dormir, meditar!
O Laboratório Intuitivo Inventivo Sensorial é matrix de desenvolvimento processual: aquilo que não se vê, ou se entende de imediato, é o que realmente move!

*watch out, we are coming!* ;-)

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