Latest Entries »

incubadora
Laboratorio
sereialabpre

Exposição em formato de LABORATÓRIO,
INCUBADORA aberta a visitação pública,
boas idéias merecem crescer e serem vistas!
Artistas podem desenvolver propostas inovadoras.
Inovação social é ação subjetiva na cultura!
Desafios cognitivos, onde o público vê no artista, uma espécie de TUTORIAL de novas formas de comunicação.
REVOLUÇÃO que vêm de dentro. O espaço da INSTALAÇÃO é espaço de encontro, onde o indivíduo pode perguntar, debater, cooperar, propor, operar, ou simplesmente refletir, silenciar, dormir, meditar!
O Laboratório Intuitivo Inventivo Sensorial é matrix de desenvolvimento processual: aquilo que não se vê, ou se entende de imediato, é o que realmente move!

*watch out, we are coming!* ;-)

DESNUDO

artesquemaSoundBare

A relação física sensorial entre o som e o corpo se desnuda no alcance do gesto.
Tintas conduzem fluxos, eletricidades. E o som também as conduz, sem que se vista de cabos.
Física quântica que não se vê a luz, se veste.

Eu me visto do vazio, e brinco com ele, por que sinto seu som passeando através do espaço.
O tempo real e virtual aguça os sentidos.

Não busco sentido no que vejo, e nem mesmo no que sinto. Sinto.
Nem muito, mas muito.
Sinto mais.

(pintura/sketch: arte esquema Sound Bare)

O que será QUE será?

Nesta versão -tipo- “flashmob”. as meninas: “moça, você é maravilhosa!”. Já os homens pararam, atônitos. Os jovens se divertiram, e os mais velhos apreciaram com gosto.

Uma ação performática lírica, solitária, e, ‘a capella’, é bem mais radical e visceral que um “flash mob”, como se têm visto em alguns lugares do mundo… A começar, ações deste porte, em coletivo, vão requerer uma super-produção, ao menos, para serem vistas como um belo “produto final” na rede. E, uma vez iniciadas, se pode perceber que é algo bem planejado.

No caso desta performance, pairou a dúvida. As pessoas sabiam que era um fato inusitado, e certamente se perguntavam o que era: um tipo de “pegadinha”? uma promoção para TV? um presente do Shopping para os seus clientes?

E a resposta é… nenhuma dessas… uma artista solitária fazendo correr sua voz no espaço… =)

pinturas2014_2-6

Neste mundo, nada é mais maleável e frágil quanto a água. Contudo, ninguém, por mais poderoso que seja, resiste à sua ação (corrosão, desgaste, choque de ondas), ou pode viver sem ela. Não é bastante claro que a flexibilidade é mais eficaz que a rigidez? Poucos agem de acordo com essa convicção.

Lao-Tsé

… vou me reciclando, e superando os limites do tempo, fazendo o quanto possa
minha estrela cadente já passeava os instantes de outrora… (algo escrito, possivelmente, em 2008… a pintura no papelão é atual…)

desenho80s
Atrás deste desenho, feito com esferográfica, em alguma aula que não conseguia me concentrar nos tempos de colégio, haviam “mil” rabiscos, entre eles, eu dizia: “não gostaria que essa folha ficasse perdida, parece que têm um mundo.”
E foi, realmente, reencontrada!
Um oceano de palavras e citações, e essa do Shakespeare, que parece uma tradução bem mais interessante do que qualquer outra que pesquisei agora pra comprovar a veracidade…

Todo mundo é um palco
um palco onde cada homem tem que representar um papel.
Há um lugar, e maneiras, de se representar o papel
para cada homem vivo.

Um palco, uma folha de papel, um cinema bidimensional: “dogville”. Bom lembrar, vou conferir novamente! ;-)

opaquelandscape

Em nós estão todas as memórias do universo

O ser humano é o último ser de grande porte a entrar no processo da evolução por nós conhecido. Como não existe somente matéria e energia mas também informação, esta vem estocada em forma de memória, em todos os seres e em nós ao longo de todas as fases do processo cosmogênico. Em nossa memória, reboam as últimas reminiscências do big bang que deu origem ao nosso cosmos. Nos arquivos de nossa memória são guardadas as vibrações energéticas oriundas das inimagináveis explosões das grandes estrelas vermelhas das quais vieram as supernovas e os conglomerados de galáxias, cada qual com suas bilhões de estrelas e planetas e asteroides. Nela se encontram ainda ressonâncias do calor gerado pela destruição de galáxias umas devorando outras, do fogo originário das estrelas e dos planetas ao seu redor, da incandescência da Terra, do fragor dos líquidos que caíram por 100 milhões de anos por sobre o nosso planeta até resfriá-lo (era hadeana), da exuberância das florestas ancestrais, reminiscências da voracidade dos dinossauros que reinaram, soberanos, por 135 milhões de anos, da agressividade dos nossos ancestrais no afã de sobreviver, do entusiasmo pelo fogo que ilumina e cozinha, da alegria pelo primeiro símbolo criado e pela primeira palavra pronunciada, reminiscências da suavidade das brisas leves, das manhãs diáfanas, do alcantilado das montanhas cobertas de neve, por fim, lembranças da interdependências entre todos os seres, criando a comunidade dos viventes, do encontro com o outro, capaz de ternura, entrega e amor e finalmente, do êxtase da descoberta do mistério do mundo que todos chamam por mil nomes e nós por Deus. Tudo isso está sepultado em algum canto de nossa psiqué e no código genético de cada célula de nosso corpo, porque somos tão ancestrais quanto o universo.
Nós não vivemos neste universo nem sobre a nossa Terra como seres erráticos. Nós viemos do útero comum donde vieram todas as coisas, da Energia de Fundo ou do Abismo Alimentador de todos os seres, do hádrion primordial, do top-quark up, um dos tijolinhos mais ancestrais do edifício cósmico até o computador atual. E somos filhos e filhas da Terra. Mais. Somos aquela parte da Terra que anda e dança, que freme de emoção e pensa, que quer e ama, que se extasia e venera o Mistério.Todas estas coisas estiveram virtualmente no universo, se condensaram em nosso sistema solar e só depois irromperam concretas na nossa Terra. Porque tudo isso estava virtualmente lá, pode estar agora aqui em nossas vidas.
O princípio cosmogênico, vale dizer, aquelas energias diretoras que comandam, cheias de propósito, todo o processo evolucionário obedecem a seguinte lógica tão bem e exposta por E. Morin, ordem, desordem, interação, nova ordem, nova desordem, novamente interação e assim sempre. Com essa lógica criam-se sempre mais complexidades e diferenciações; e na mesma proporção vão se criando interioridade e subjetividade até a sua expressão lúcida e consciente que é a mente humana. E simultaneamente e também na mesma proporção vai se gestando a capacidade de reciprocidade de todos com todos, em todos os momentos e em todas as situações. Diferenciação /interioridade/ comunhão: eis a trindade cósmica que preside o organismo do universo.
Tudo vai acontecendo processualmente e evolutivamente submetido ao não-equilíbrio dinâmico (caos) que busca sempre um novo equilíbrio, através de adaptações e interdependências.
A existência humana não está fora desta dinâmica. Tem dentro de si estas constantes cósmicas de caos e de cosmos, de não-equilíbrio em busca de um novo equilíbrio. Enquanto estivermos vivos nos encontramos sempre enredados nesta condição. Quanto mais próximos do equilíbrio total mais próximos da morte. A morte é a fixação do equilíbrio e do processo cosmogênico. Ou a sua passagem para um nível que demanda outra forma de acesso e de conhecimento.
Como esta estrutura concretamente se dá em nós? Antes de mais nada pelo cotidiano. Cada qual vive o seu cotidiano que começa com a toillete pessoal, o jeito como mora, o que come, o trabalho, as relações familiares, os amigos, o amor. O cotidiano é prosaico e, não raro, carregado de desencanto. A maioria da humanidade vive restrita ao cotidiano com o anonimato que ele envolve. É o lado da ordem universal que emerge na vida das pessoas.
Mas os seres humanos são também habitados pela imaginação. Ela rompe as barreiras do cotidiano e busca o novo. A imaginação é, por essência, fecunda; é o reino do poético, das probabilidades de si infinitas (de natureza quântica). Imaginamos nova vida, nova casa, novo trabalho, novos prazeres, novos relacionamentos,novo amor. A imaginação produz a crise existencial e o caos na ordem cotidiana.
É da sabedoria de cada um articular o cotidiano com o imaginário, o prosaico com o poético e retrabalhar a desordem e a ordem. Se alguém se entrega só ao imaginário, pode estar fazendo uma viagem, voa pelas nuvens esquecido da Terra e pode acabar numa clínica psiquiátrica. Pode também negar a força sedutora do imaginário, sacralizar o cotidiano e sepultar-se, vivo, dentro dele. Então se mostra pesado, desinteressante e frustrado. Rompe com a lógica do movimento universal.
Quando alguém, entretanto, assume seu cotidiano e o vivifica com injeções de criação então começa a irradiar uma rara energia interior percebida pelos que com ele convivem.
* Leonardo Boff – teólogo, escritor. Escreveu O despertar da águia: o sim-bólico e o dia-bólico como construção da realidade, Vozes 2002.

(e a pintura: “opaque landscape”, Elen Nas)

PRESSÁGIO

VI

Água esparramada em cristal,
buraco de concha,
segredarei em teus ouvidos
os meus tormentos.
Apareceu qualquer cousa
em minha vida toda cinza,
embaçada, como água
esparramada em cristal.
Ritmo colorido
dos meus dias de espera,
duas, três, quatro horas,
e os teus ouvidos
eram buracos de concha,
retorcidos
no desespero de não querer ouvir.

Me fizeram de pedra
quando eu queria
ser feita de amor.

Hilda Hilstrmfoto 3

(rmfoto 3Aquarela: Elen Nas)

Mar Absoluto

marvermelho

Foi desde sempre o mar,
E multidões passadas me empurravam
como o barco esquecido.

Agora recordo que falavam
da revolta dos ventos,
de linhos, de cordas, de ferros,
de sereias dadas à costa.

E o rosto de meus avós estava caído
pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas,
e pelos mares do Norte, duros de gelo.

Então, é comigo que falam,
sou eu que devo ir.
Porque não há ninguém,
tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.

E tenho de procurar meus tios remotos afogados.
Tenho de levar-lhes redes de rezas,
campos convertidos em velas,
barcas sobrenaturais
com peixes mensageiros
e cantos náuticos.

E fico tonta.
acordada de repente nas praias tumultuosas.
E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos.
“Para adiante! Pelo mar largo!
Livrando o corpo da lição da areia!
Ao mar! – Disciplina humana para a empresa da vida!”
Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas.
A solidez da terra, monótona,
parece-nos fraca ilusão.
Queremos a ilusão grande do mar,
multiplicada em suas malhas de perigo.

Queremos a sua solidão robusta,
uma solidão para todos os lados,
uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo,
e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.

O alento heróico do mar tem seu pólo secreto,
que os homens sentem, seduzidos e medrosos.

O mar é só mar, desprovido de apegos,
matando-se e recuperando-se,
correndo como um touro azul por sua própria sombra,
e arremetendo com bravura contra ninguém,
e sendo depois a pura sombra de si mesmo,
por si mesmo vencido. É o seu grande exercício.

Não precisa do destino fixo da terra,
ele que, ao mesmo tempo,
é o dançarino e a sua dança.

Tem um reino de metamorfose, para experiência:
seu corpo é o seu próprio jogo,
e sua eternidade lúdica
não apenas gratuita: mas perfeita.

Baralha seus altos contrastes:
cavalo, épico, anêmona suave,
entrega-se todos, despreza ritmo
jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, mas é desfolhado,
cego, nu, dono apenas de si,
da sua terminante grandeza despojada.

Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões:
água de todas as possibilidades,
mas sem fraqueza nenhuma.

E assim como água fala-me.
Atira-me búzios, como lembranças de sua voz,
e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino.

Não me chama para que siga por cima dele,
nem por dentro de si:
mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom.
Não me quer arrastar como meus tios outrora,
nem lentamente conduzida.
como meus avós, de serenos olhos certeiros.

Aceita-me apenas convertida em sua natureza:
plástica, fluida, disponível,
igual a ele, em constante solilóquio,
sem exigências de princípio e fim,
desprendida de terra e céu.

E eu, que viera cautelosa,
por procurar gente passada,
suspeito que me enganei,
que há outras ordens, que não foram ouvidas;
que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos,
e o mar a que me mandam não é apenas este mar.

Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças,
mas outro, que se parece com ele
como se parecem os vultos dos sonhos dormidos.
E entre água e estrela estudo a solidão.

E recordo minha herança de cordas e âncoras,
e encontro tudo sobre-humano.
E este mar visível levanta para mim
uma face espantosa.

E retrai-se, ao dizer-me o que preciso.
E é logo uma pequena concha fervilhante,
nódoa líquida e instável,
célula azul sumindo-se
no reino de um outro mar:
ah! do Mar Absoluto.

(poema Cecília Meireles, pintura em aquarela Elen Nas)

Perguntas e Respostas

ofluminense15ago2014

Abaixo, série de perguntas enviadas pela jornalista Suzana Moura, do Fluminense, com as minhas respostas. Acima, a adaptação para matéria, por Marina Assumpção.

Fale um pouco sobre a exposição.

A exposição “Lirismo na Rua” é um reflexo da intervenção artística urbana que leva o mesmo nome. Cantar ópera na rua é como sair por aí recitando poesias em voz alta, muito alta, aliás, rs. A melodia é o condutor que “apara as arestas” de uma atitude que, sem ela, poderia soar até mesmo agressiva, “destemperada”. Não têm o “cravo bem temperado”? Pois bem, este é o “lirismo bem temperado”!
Num primeiro momento resolvi fazer uma saia de partituras para compor o personagem solto na cidade. Isto era ainda um “escudo de proteção” para se lançar num território de experimentação das acústicas dos locais, deixando claro que estava ali para isso mesmo. Com o êxito desta ação, pensei em outras experimentações em que não ficasse mais tão claro que era ali uma artista, propositalmente, em ação, mas uma pessoa comum, que gosta, e sabe, cantar óperas, e resolve cantarolar num supermercado, ou qualquer outro lugar, como se não se desse conta de que está se exaltando. Por que as óperas são canções exaltadas! O sentido delas é a exaltação, é expressar em alto e bom tom o que você está pensando, os seus sentimentos!
Pois bem, com o manuseio das partituras para composição da saia, pensei também em um outro tipo de ação, mais silenciosa, e com maior durabilidade do que o momento efêmero da performance: montei alguns pequenos painéis compostos com partituras, em forma de “quebra cabeças”, em que o desenho se mostrava apenas na composição geral, quando estava colado as paredes. Esta foi outra etapa de experimentação, pois utilizei partituras originais, e depois vi também que não era legal distribuí-las por aí, para depois de algumas semanas serem rasgadas, retiradas dos seus locais.
Então, fazer uma exposição sobre a performance, e ainda uma performance que envolve a sensação auditiva e não apenas visual, toma uma forma bem mais complexa. Pra começar, a performance para esta exposição aconteceu em um lugar público, um shopping de Niterói. Registramos com vídeo, mas só mesmo quem estava ali, naquele momento, pode ter a dimensão do ato. A surpresa, o inusitado, possui uma série de estímulos cognitivos, e isto não se repete em outro momento, nem para quem irá assistir um registro do ocorrido. Assim, este é um trabalho que acontece e se encerra naqueles minutos de sua execução. Retratar isto é apenas registrar, mais nada.
A exposição é um reflexo deste trabalho e, veja bem, se as pessoas fossem convidadas para ir a galeria me ouvir cantar, fazer esta performance ao vivo lá, independente do talento e da voz da cantora, e de uma reverberação curiosa do espaço com paredes de vidro, seria em parte um espetáculo musical que careceria de alguns elementos importantes para a boa execução de um espetáculo musical, e o objetivo, neste caso, não é fazer você ir a um determinado espaço específico me ouvir cantar, mas que você seja surpreendido com alguém cantando ao seu lado.
Creio que, se eu fosse uma artista exclusivamente dedicada as expressões do corpo, imaginaria uma outra maneira de moldar este formato de exposição sobre a performance. No entanto, a composição sonora eletrônica me conduziu ao território de pesquisa e experimentação com as novas tecnologias, então, eu processei o som desta performance pública, picotei, e, separei , de modo que estes sons irão aparecer aleatoriamente com estímulos sensoriais. “Estímulos sensoriais” parece algo bem excitante, rs, mas é bem técnico também. Sensores bem simples que captam a presença, uma vez ‘acionados’ irão acessar estes trechos sonoros, de maneira aleatória. Esta interatividade e a escolha randomica dos arquivos fará também que cada momento, dentro da galeria, seja único. Os sons poderão se complementar, poderão se atropelar, poderão se repetir ou se confundir. Nunca um momento será igual ao outro, do mesmo modo que nunca uma performance será igual a outra.

Como você pretende mostrar a imagem urbana?

Primeiro, a imagem urbana presente no som, no caso desta performance que foi dentro de um “shopping center”, é de muitas vozes, ruídos dos equipamentos, dos passos, das conversas, dos pratos e xícaras de um café. Se fosse na rua mesmo, teríamos ainda os diversos motores de carros, ônibus, motocicletas, e talvez, junto com tudo isto ainda, pássaros, gritos, sirenes…
Um outro lado da adaptação desta exposição, de acordo com o espaço e características da galeria do Centro Cultural Paschoal Carlos Magno, são os painéis feitos com partituras. Em outros momentos eu desenhava figuras quase que extra-terrenas, mas neste momento senti também necessidade de, mesmo com o meu lirismo, me somar a outras figuras urbanas que fazem a performance da contestação, tendo em comum os questionamentos quanto a apropriação dos corpos pelos preceitos morais. As formas de controle e repressão, principalmente sobre as mulheres. Então essas figuras são apenas lembranças de heróis/heroínas urbanas, fictícias e reais.
Os rabiscos sobre as partituras antigas, nos lembra que tudo é expressão, exaltação da alma humana, dos nossos anseios e da nossa capacidade de fazer, construir histórias, criar reflexões.

Como surgiu a ideia de fazer essa retratação?

A paisagem sonora urbana é algo natural, e recorrente nas obras de arte sonora. E a arte sonora se desenvolve ainda na complexidade de recursos técnicos para ampliar o sentido auditivo, aguçar as percepções. No caso desta exposição, vamos compactar o som em estéreo para simplificar a parte técnica.
De todo modo, ainda sobre a pergunta, as caracteristas específicas desta galeria apresentou outros desafios. Em uma galeria fechada com paredes de concreto, possivelmente focaria a parte visual na expansão do vídeo da performance para as paredes do local, e poderia fazer apenas um pequeno painel, como referência ao trabalho anterior, numa parede de entrada, por exemplo.
Como não temos paredes, mas vidro, transparência, os painéis ganharam um sentido mais presente, então eu comecei a pensar se eles estariam ali apenas como partituras, de forma decorativa, ou se eles ainda iriam trazer algum recado.
Neste recado eu pensei que, do mesmo modo que as óperas possuem personagens heróicos, heroínas que vivem milhares de infortúnios, seria legal então pensar nos novos heróis urbanos, os heróis do século 21, além de uma e outra referência fictícia do século 20 que, sem dúvida, remonta também as figuras heróicas da antiguidade, deuses e semi-deuses do olimpo.

Como você acha que as pessoas enxergam seu trabalho?

A arte contemporânea é, cada vez mais, difusa e confusa. Tanto para o público, quanto para os artistas. Em muitos casos, o que está em questão não é a qualidade de uma obra, ou seja, suas bases, técnicas, pesquisa, processo e autenticidade da linguagem do artista, mas sim, a demarcação de um território, tramas de poder, enfim, um “jogo de xadrez”. Somado a isto, sabe aquele clichê do “menos é mais”? Pode ser legal no design e tal, mas cair no jogo da padronização de conceitos estéticos, é perigoso, é cartesiano, industrial… Tive que introduzir a resposta assim, por que eu sinto que, embora muitas das obras que nos tocam sejam um relicário de memórias, sensações e desejos, existe uma resistência em relaxar e entender as narrativas múltiplas. E a resistência não é do público. O público que quer apreciar a arte se dispõe a participar, apreciar, ouvir, absorver, e até entender, se for necessário. Mas obras que envolvem performance são acontecimentos espetaculares. A disponibilidade do corpo em meio ao público causa reações muito íntimas aos que estão em volta. No caso do meu trabalho, a performance operística causa admiração, na maior parte das vezes, algo, de certa forma oposto ao “body art” que, embora mais consolidado no território da arte contemporânea, costuma causar reações adversas no público. Todo trabalho de performance é um desafio as regras existentes, e em todos existem repetições, modismos, tendências, etc. Então, eu não sei exatamente como o público vê o meu trabalho, gostaria de saber por que sou curiosa e antropóloga 24h ao dia. Sei que o lirismo pode ser enfadonho para uns, mas possui uma riqueza cultural sempre bem-vinda, e pode ser surpreendente. Eu moldo a minha revolta sobre a brutalidade das relações humanas e sociais com lirismo, por que sem ele eu falaria só um “palavrão” e isto não seria suficiente, então é um beco sem saída cheio de monstros e muita agressão. Imagine se você, ao invés de xingar alguém, resolve virar as costas e cantar bem alto uma canção, que fala de amor, fala de ingratidão, fala de traição, fala de espera, fala do impossível, do risível, de tudo que nos assombra?
Sinto que, ao cantar em público, ‘a capella’, desafio as pessoas a cantarem também, por que elas me vêem entre elas, entre todos os barulhos, entre os seus afazeres. Diversas vezes que eu cantei assim, ouvi um “lara-ri-ra-rá” de réplicas. As vezes parece deboche, mas isto pouco importa. É um desafio a expressão, a um dom precioso e esta possibilidade divina de se comunicar com o som que você produz no seu próprio corpo.
Indiretamente há também um manifesto relacionado a música, ao lugar do talento dentro de um mercado padronizante, e por aí vai.
Também senti como “reações adversas” do público que passava quando cantava na rua, de que eu não deveria estar ali, deveria cantar num lugar apropriado, num grande teatro. Essa relação de apego ao contexto ideal também fez algumas pessoas chorarem, e eu também chorei ao ver que podia, no meio de tudo isso, inspirar uma insatisfação sobre as injustiças nestas “ditaduras de mercado”.
Então, a arte é um elemento catalizador. Você sabe que o mundo é cheio de injustiças, mas se algo mais sutil te desperta pra isto, você vai se livrar um pouco da aceitação das brutalidades. São elementos simbólicos bastante enriquecedores do desenvolvimento processual na nossa cultura.

Em que ou quem você se inspirou para montar a exposição?

Bom, inicialmente eu propuz uma performance e pensei entregar o registro em vídeo para uma montagem que reunisse outras obras, outros artistas. Recebi a notícia de que a minha proposta iria ser também a ocupação da Galeria do Centro Cultural Paschoal Carlos Magno.
Foi então, esta grata surpresa, que me fez pensar para além do ato performatico, uma maneira de traduzir a experiência, conceito e proposta do meu trabalho, num projeto de ocupação.
Deste modo, esta é a primeira exposição do “Lirismo na Rua” que, por ser inédita, reúne uma série de improvisos e esforços de traduzir a obra com recursos que estejam a mão, reutilização de materiais, e apoio de alguns colegas.
E, por incrível que pareça, algumas limitações se tornam força motriz para se pensar nas soluções mais criativas. Então eu falei de muitos territórios conflitantes: o talento e a oportunidade, o mérito e o “QI”, a música e o mercado, a arte e a hermenêutica, linguagem/experimentação e preceitos morais, e por aí vai.
Lembrei também de alguns ícones, desde a “mulher maravilha” e seus “superpoderes”, até as polêmicas recentes de “xereca’s satanik”, manifestantes “black block”, nudez em todos os campos como os no movimento pró-ciclismo a nível local (“massa crítica”), e mundial, e as primeiras prisioneiras acusadas de vandalismo, que não vandalizaram nada dentro de uma igreja russa, mas filmaram uma performance pedindo a “Ave Maria” que um determinado candidato não seja eleito…as “pussy riots”, que traduzindo seria algo como “bucetas em motim”. Veja bem, é tudo lírico, tudo extraordinário. Tudo que quer chocar é arrebatador, assim como toda resistência da moral transforma o simples e natural, em todo tipo de interpretação neurótica. Por exemplo, se um “topless” na praia fosse ignorado, respeitado como uma vontade e bem estar daquela pessoa que está fazendo, jamais se tornaria um foco de atenção para mídias e interpretações de toda classe (“o que aquela mulher quer?”, “aparecer, por que é atriz”, “tá fim de arrumar um homem”, “incomodar o namorado”, etc.).
Me inspira a possibilidade de agregar elementos para reflexões mais amplas. E, posso dizer que, na arte sonora venho trabalhando com esta percepção auditiva em múltiplos canais. Certa vez, gravei vozes das pessoas para elas acessarem em uns dispositivos interativos. O objetivo era fazer elas procurarem suas vozes, enlaçadas em outros sons e vozes, em cada trecho sonoro.
É um exercício de expansão mental, um exercício de observar elementos diversos em paralelo, sem a pressa de conclusões imediatas. Este é também um processo de desaceleração. Criamos máquinas como ferramentas de expansão, se resumimos elas em ferramentas de controle, nos tornamos parte deste controle, passando a nos comportar como máquinas.
A escravização do humano a maquina, é, a esta altura, algo tão primitivo, que, se ainda não foi superada para um outro patamar, precisamos da compreensão sobre o desapego.
A propósito, foi preciso desapegar de livros de partituras, alguns com mais de 60 anos, que viviam fechados, amarelados e escondidos. Uma memória ultrapassada, esquecida, relegada a guetos capazes de ler aqueles símbolos.
Então este é o enredo: mar denso.
Se você me pergunta o que me inspira, resposta única e simples: o que me inspira é o mar.

interAtividade

antes_overture

Certamente as novas tecnologias possuem meios de tornar as obras interativas surpreendentes. Mas onde tudo realmente começa, senão na imaginação?  Uma pintura, ou escultura, pode ter iniciado com seus desafios mais realistas, até que tal esforço não fazia mais sentido. Então, a obra de arte, passou a desafiar o seu olhar, com impressionismos, expressionismos, surrealismos e abstrações de experiências técnicas, matemáticas, científicas, e, por que não dizer, igualmente metafísicas.

Eu me desafio: eu te desafio.

Meu caminho é abismo que já perdi o chão: vou tecer uma tela no alto, bem alto, pra você caminhar, e sentir um pouco o que sinto!

Eu cresci na dúvida, e veja quantas coisas belas eu vejo e faço! Quem sabe então, eu compartilhe com você um momento que você veja a sua sombra, e aprenda a dançar com ela!

Vejo cidades orgânicas, quero fazer um pedaço delas para que possamos experimentar viver num mundo assim, mesmo por um pequeno momento. Estou certa, muito certa, que você entra por um lado, e sai de outro jeito.

A sua receptividade, sensibilidade e elementos para reflexão vão conduzir a sua jornada em cada micro-experiência nessa vida.

Por isto, vejo que, cada obra de INSTALAÇÃO possui como meta, a INTERATIVIDADE . A ARTE PÚBLICA, para o público, torna a PARTICIPAÇÃO elemento essencial da obra proposta.

Eu crio o mundo. Faço votos que você também se veja capaz de criar outros mundos.

Quem concebeu: o espaço, o vazio, o eterno, o acaso, o ovo, o divino… Não estamos falando disso agora.

ARTE é comunicação, é semiótica, é convite a reflexão. E a reflexão, o que é? Convite ao conhecimento, a criação, ao desenvolvimento humano, ao aprimoramento da vida em comunidade.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 2.587 outros seguidores